Vitorino Nemésio:
        
vida e obra

Leitura de Mau Tempo no Canal: 

A ilha perdida

Outro Pai (capítulo 1)
Um passeio a cavalo  (capítulo 9)
No tempo da fror (capítulo 18)
A aventura de Margarida (capítulo 29)
Tou co a peste, meu amo!... (capítulo 22)
Cândia Furoa (capítulo 33)
Azorean torpor (capítulo 37) 
A serpente cega (capítulo 37)

Caracterização de Margarida Clark-Dulmo
Caracterização de Roberto Clark 

Proposta de produção de textos expositivo-argumentativos

Glossário

Obra completa

Série baseada no romance de Vitorino Nemésio e realizada por José Medeiros para a RTP/Açores

Vitorino Nemésio

MAU TEMPO NO CANAL

A «ILHA PERDIDA»

MAU TEMPO NO CANAL | Vitorino Nemésio

 

 

Se toda a ficção de Vitorino Nemésio se pode considerar como um percurso em direcção a uma ilha perdida, é no romance Mau Tempo no Canal que essa deriva sem meta geográfica se impõe de maneira absorvente abarcando tanto o nível da estruturação romanesca como as observações, os apontamentos de vária índole - dedadas com que o autor vai acompanhando o desenrolar das peripécias.

[…]

Porque o tema da ilha perdida nos surge como o cerne da narrativa, vejamos como ele se distribui, à maneira de leitmotiv, ao longo do romance.

 

Anúncio duma distância insuperável, a ilha perdida é evocada quando Margarida se distancia do seu meio social para o criticar amargamente.

Descendente de Fernão DuImo, pelo lado paterno, e duma família inglesa, pelo lado materno, híbrida de vários sangues - todos respeitáveis, desde o sangue flamengo do descobridor até ao sangue inglês duma burguesia que foi próspera - Margarida possui lucidez suficiente para se compenetrar da decadência económica a que o comportamento do pai arrastou a família. Diogo Dulmo é um péssimo administrador. O avô Clark encontra-se paralítico. D. Catarina Clark, adoentada e fraca, remete-se ao tradicional papel doméstico. O irmão Pedro não se mostra dotado para os estudos; é uma criança grande, que não mede responsabilidades. O tio Mateus Dulmo, por quem Margarida nutre especial afecto, está velho e não possui um carácter pragmático: gosta de música, há nele uma bondade poética e um aristocratismo que o tornam incapaz de entrar na selva dos negócios.

Este quadro de decadência que, nas suas linhas gerais, não difere de tantos e tantos que o romance nos tem dado, mostra-se-nos, porém, perturbado pela tónica «viril» contida na opinião de Margarida. Contrariando a passividade a que a sociedade condena tradicionalmente a mulher, Margarida é a consciência do descalabro familiar e a consequente revolta: «... a mãe anda sempre como uma pilha de nervos e o avô envelheceu de desgostos. Foi a congestão... foi!... Os desgostos é que o levam à cova! Os pastos dos Flamengos vendidos, o escritório ao deus-dará, a armação das baleeiras enterrada de dívidas, é tudo congestão... É mas é o resultado de terem posto na rua quem ia à mão ao pai! «Ladrão»... Pois sim! Mas dar cabo da casa do sogro e dos filhos não é roubar, é ser «duodécimo neto de Fernão Dulmo, descobridor de uma suposta ilha ao Norte da Terceira; neto do capitão-mor Diogo Dulmo, que hospedou na sua casa da Horta o Senhor D. Pedro IV...» (cap. II).

Margarida ergue-se contra a triste realidade «com ênfase sarcástica». Este assomo de rebeldia, opondo o comportamento destrutivo aos pruridos do sangue-azul, não dispensa, contudo, a «suposta ilha» de Fernão Dulmo.

É como se a nostalgia dessa época de aventuras fundamentasse, perante a decadência do tempo presente, os juízos de valor, sarcásticos ou amargos. Mas a teia das insinuações contida no desabafo de Margarida ultrapassa o plano da reprimenda. De certa forma, o pai, Diogo Dulmo, traiu duplamente a sua missão: por ser indigno da «ilha perdida», da lenda que a envolve; e por não conseguir manter, no plano material, o dos negócios, o velho desafogo herdado da iniciativa britânica. É certo que a aliança entre o aristocrata falido e a burguesinha rica constitui tema milhentas vezes abordado por bons e maus escritores. Curiosamente, Nemésio, que de literaturas sabia mais do que o comum dos escritores, não nos informa acerca do enredo casamenteiro de que surgiu Margarida Clark Dulmo - burguesa pelos Clark, nobre pelos Dulmo. À parte uma série de dados eruditos - vinculados à realidade da cidade da Horta - com que o autor povoa o passado próximo (em relação à heroína), ·dir-se-ia que é graças a Margarida que o mundo começa, e devido à desilusão de Margarida (cedência aos interesses económicos e sociais) que o mundo acaba. O mundo romanesco, entenda-se. Completo, auto-suficiente como toda a obra-prima. De certa forma, uma obra-prima também é uma «ilha».

Mas a ilha perdida de Margarida Clark Dulmo não se esgota na distância que, interiorizada em revolta, lhe possibilita o desabafo azedo relativo à decadência duma família e duma época. Fuga e comunhão parecem equilibrar-se nessa heroína. O passado lendário está-lhe no cerne da consciência crítica. Mas a presença do real, recortado em diversas ilhas, fragmentado, e por isso mesmo conflituoso, constitui-lhe a mácula do presente, o seu estar pegado ao mundo físico. Ainda no capítulo II de Mau Tempo no Canal, Margarida evoca a aventura de alpinista que a levou ao cimo da montanha do Pico, à «ponta do Pico» (como dizem os autóctones), ou seja, ao lugar mítico de onde se avistam as nove ilhas do Arquipélago (o que, sendo falso, Gaspar Fructuoso e António Cordeiro admitiram de boa-fé). Eis o texto: «Não estava um dia muito claro; mas vira aparecer o sol dos lados da Terceira, todo sangrento num mar de chumbo, um mar como nunca tinha visto, fresco e sem nada que lhe cortasse a ilimitação parada, a não ser as ilhas negras e acobreadas numa neblina. Para a banda das Flores, uma lua de bordos tristes ia morrer. Mas ela sentia-se contente a ver o sol crescer devagar para ela, que o esperava à borda da cratera apagada do Pico, com um pau ferrado. O vulto estirado de São Jorge, da Ponta dos Rosais ao Topo, parecia um navio azulado pelo próprio fumo da marcha, de proa à «suposta ilha» de Fernão Dulmo, que via a nudez do sol primeiro que outra alguma.»

À semelhança da onda que rebenta e logo se retrai, a «ilha perdida» avança do passado e logo é devolvida à sua categoria mítica. Dir-se-ia que todas as ilhas visíveis não passam dos respingos fugazes da vaga que embate nas rochas negras da costa açoriana. Com efeito, o mar, avistado da «ponta do 'Pico», é sentido como «ilimitação parada» e raramente alguém terá definido tão expressiva e sobriamente essa envolvência marítima que, apreciada a 2351 metros de altitude, faz do mar o todo e das ilhas simples acidentes. É como se a pequenez do mundo físico surgisse subitamente ante a luz duma razão superior. Margarida via o sol avançar conservando na mão um «pau ferrado», um daqueles bordões especiais, de ponta de ferro, que se usavam para escalar a montanha. E assim a pequenez se torna dupla: humana e física. Também a ilha perde a sua imobilidade, como que absorvida na ilimitação suspensa do horizonte marítimo. E São Jorge transforma-se no barco lendário de Fernão Dulmo aproado à ilha perdida, a inexistente, «que via a nudez do sol primeiro que outra alguma». Onde fica tal ilha? Onde reside tal primazia? E porquê a «nudez do sol»? Primórdios, descoberta, desfloramento!

Como princípio estruturante duma cosmovisão, a ilha perdida é a auréola e o prestígio que acompanham a fundação das comunidades, sejam elas tribos, nações, Estados ou Impérios. Margarida Clark Dulmo sente-lhe o fascínio, mas nem por isso evita criticar-lhe a degenerescência. Nemésio, que nunca aceitou as esquematizações ideológicas, afina por diapasão idêntico ao da sua heroína. Repare-se na seguinte metamorfose da ilha perdida, no capítulo IV do romance: «As Lemos seguiam com dificuldade aquele sábio torneio, mas admiravam o vigor de Mateus Dulmo, o seu prestígio de representante directo do descobridor da suposta ilha ao Norte da Terceira»... E D. Catarina Clark, quando Margarida se ausenta no Pasteleiro, parece encontrar um certo lenitivo para os seus dias amargurados ao perguntar a si mesma: «E não eram fidalgos dos quatro costados descendentes do capitão flamengo Fernão Dulmo, descobridor de uma suposta ilha ao Norte da Terceira?» (cap. XXVII). Esse princípio ordenador pode até ser entendido na sua dimensão histórica, factual, como valor que supera, mesmo num presente decaído, a mesquinhez do meio ou a redução da cultura a mero adorno social que o burguês cobiça mas que não aprofunda.

Quando o narrador considera as possibilidades de Margarida, dum ponto de vista pragmático (que futuro para uma jovem de tal condição? que casamento? que terra para viver?), a ilha perdida vem muitas vezes interferir nesses projectos actuando como apelo que se sobrepõe às tentações deste mundo.

Assim, na sua exterioridade, Margarida é uma forma frequentemente fascinada por esse navegar rumo ao indefinido. Um exemplo: «Margarida ia de cabeça direita e de olhos nos barcos que largavam a todo o pano para lá do ,Cana!» (cap. VIII). Outras vezes, graças ao discurso directo, Margarida é-nos apresentada como criatura psicologicamente amadurecida, «velha», para além da idade civil: "Velha, não; mas enfim... o tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera!...

«- Viajar ou envelhecer?

«- Talvez ambas as coisas... » (cap. IX).

Envelhecer por ter viajado. Ou envelhecer por ter alcançado outra dimensão, a da busca da ilha perdida, dimensão que altera o sentido de qualquer rumo.

Numa tentativa de fazer coincidir essa ausência irremediável com um fragmento da realidade - por ilusório que este seja! - Margarida sonha com um processo de sobreposição (processo análogo ao da gestação da metáfora, veículo da expressão e consciência da supressão). O seu monólogo interior revela-nos obsessões como as seguintes: «... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente... gaivotas... sem ninguém» (cap. IX).

Devaneio a roçar o onírico, o passo que transcrevemos nada possui de arbitrário, nem de gratuito. Pelo contrário: subjacente ao que à primeira vista poderia parecer simples divagação dum espírito sonhador, encontramos nesse articulado uma crença há muitos séculos expandida na fronteira do Pico: a de que o Faial desaparecerá numa manhã de São João para dar lugar a outra ilha, ilha encantada, ilha de abundância e felicidade. A tensão espaço/tempo assume neste texto grande acutilância. Não só a conversão desses dois termos denota a superação dos velhos quadros do entendimento, mas também a reversibilidade do tempo - enquanto anseio - desemboca mais uma vez no tema do descobrimento da ilha deserta: que a ilha chamada Faial se transforme em outro Faial, que em frente dela permaneça o Pico... mas tudo «sem ninguém».

De admirar seria que este desejo de alteração do real, que vai ao ponto de substituir a ilha existente por uma ilha ideal, purificada da mesquinhez, da clausura, das limitações terrenas, não conduzisse ao apelo da morte. Margarida, meditando nas linhagens várias que nela se entrecruzam, fixa a atenção no apelido Terra e extrai-lhe um significado mágico: «Sim: «terra» como toda a gente em quarta-feira de cinzas... Deixem lá a pobre da avó no seu caixilho!» (cap. X). É que a sociedade onde se move Margarida Clark Dulmo ainda é, nesse tempo da Primeira Grande Guerra, uma comunidade onde os vários ritos se cumprem escrupulosamente; há tempo estatuído para folgar, e tempo para meditação, arrependimento e culto dos mortos. Dentro da sua tacanhez, ainda é uma sociedade que conserva as suas próprias razões constitutivas, a sua própria orgânica, mesmo que sob a sua placidez os interesses económicos fervilhem (como veremos mais adiante). É em tal contexto humano que se tem de entender a relação dum apelido com o seu significado oculto, significado corroborado pela consciência de que a morte a todos nivela. E esse derradeiro nivelamento, amargamente presente na consciência de Margarida, é a própria angústia do poeta Nemésio, ciente da vanidade de tantas subtilezas classistas. Assim a ilha perdida se transforma na realidade que os olhos de cada qual não vêem nos despojos da vida: a da própria caveira, onde em vez da pupila reina a ausência. Também a ilha perdida foi apenas vacuidade, também a ilha perdida não pode olhar-se a si mesma. Ser impalpável, uma das suas múltiplas faces - a mais negra - chama-se precisamente Morte.

Dentro do perpassar de ritos da comunidade faialense, avulta o lugar conferido à Semana Santa (cap. XIII). Do ponto de vista do enredo, é nesse tempo de contrição que o amor impossível de João Garcia por Margarida adquire, ele também, uma dimensão de entidade que não é «deste mundo», inserindo-se na tradição ocidental que, desde a poesia dos trovadores (e Vitorino Nemésio foi exímio estudioso dessa poesia), impede a consumação do amor humano, o qual, por razões tão complexas como a gestação do chamado «Mundo Ocidental», é também fuga e «ilha perdida». Não nos surpreende que um amor qualquer se transforme em «amor de perdição» - pois assim rezam os cânones para que os entes, se mitifiquem, chamem-se eles Tristão e Isolda, ou Romeu e Julieta, etc. O que surpreende é a simplicidade, digamos a naturalidade (que é sempre um equívoco!) com que Vitorino Nemésio introduz numa corriqueira cerimónia católica o peso cultural dessa relação amor-morte. Mas citemos o passo de que nos ocupamos: «Em São Jorge havia de tudo... Falaram de vacas. Margarida gostava de ferras; tinha estado na Terceira. Os toiros à corda divertiam-na, principalmente aquela gente trepada pelas paredes e o estampido dos foguetes. «Oiça, Margarida...» E o resto. O resto, até que, felizmente, Pedro saiu das moitas, lá da banda do lago, com os pezinhos crispados de um belo pernalta na mão: «Uma galinhola... Logo à primeira chumbada!»

«Ajoelhada na nave, Margarida fazia por desterrar estas lembranças vagabundas aplicando-se ao livrinho:

 

«Conduziram então Jesus da casa de Caifás ao pretório. Era de manhã. E eles não entraram no pretório, para não se contaminarem, e poderem comer a Páscoa. Saiu então Pilatos fora a ouvi-los, e disse: «Que acusação apresentais contra este homem?...

 

«Mas o diácono já ia adiante:

 

«Gens tua, et pontifices tradiderunt te mihi: quid fecisti? C. Respondit Jesus: Regnum meum non est de hoc mundo» (cap. XIII).

 

Dir-se-ia que a temporalidade do mundo português se dilatou. E que se dilatou até às fontes detectáveis do complexo cultural que o gerou. Os séculos dos chamados Descobrimentos recuam até ao momento em que Cristo declara que o seu reino não é deste mundo.

Nas suas linhas-mestras, este passo pode ser encarado como um conflito entre o sagrado e o profano. O sagrado surge-nos cindido devido à concorrência do latim litúrgico com a versão portuguesa do mesmo texto. O profano surge igualmente cindido entre folguedos populares e uma actividade aristocratizada: a caça. Vários desfasamentos se processam na vida psíquica de Margarida, todos eles sintomaticamente denunciados no facto de ela não acompanhar devidamente, em português, o texto recitado pelo diácono. Mas, sob este singelo pormenor, está a tensão cultural e religiosa, tensão particularmente sentida na vida colectiva açoriana, onde ainda hoje persiste, à sombra do culto do Divino Espírito Santo, toda uma gama de ritos pagãos, contra os quais em vão têm lutado alguns prelados menos transigentes ou menos sensíveis às efectivas características da mentalidade açoriana. Registe-se que o autor, ao citar o fragmento latino, escolheu uma frase muito significativa, aquela em que Cristo declara que «outro mundo» se sobrepõe ao mundo terreno. Outro mundo, outra ilha...

Margarida Clark Dulmo é, como vimos, um ser em fuga... para o indefinido. Por vezes a ânsia de evasão leva-a a um contacto íntimo com o povo, isto é, com aquela camada que não se enquadra no mundo dos pergaminhos e dos negócios. A sua familiaridade com os servos de ambos os sexos chega a traduzir-se em abnegação. É o que acontece, por exemplo, quando não se poupa a esforços para salvar o criado Manuel Bana, que consegue resistir à peste. A vitalidade do povo opõe-se, no espírito de Margarida, à decadência da classe em que nasceu: «Mil anos que vivesse, Margarida não esqueceria a noite do baile, no meio daquelas jaquetas dos rapazes do Capelo e das saias rodadas das vizinhas da Rosa Bana. Sentia-se ali como a pranoha que vem do alto-mar e encontra enfim uma posição capaz de fixar as gaivotas e a sua própria massa de seivas, as suas fibras, os furos a que se agarram conchinhas e algas verdes» (cap. XVIII).

Momento de ilusória fixação (note-se o impacto do verbo ,«fixar» no passo transcrito), o contacto com o povo, à margem de sofisticações ou de instrumentalizações, fornece a Margarida uma espécie de oásis no meio da permanente deriva. É o povo excelente, como o retratam os manipuladores? Não. Vitorino Nemésio não entrou em tais escolas literárias. Ouçamo-lo: «Lapuzes sim; brutinhos e suados. Mas eram vivos; as velhas dividiam-nos em «machos» e «fiminhas» nas conversas da pedra do lar. Era a sua gente, através de Manuel Bana, que andara com ela ao colo e tinha confiança no seu paladar para provar a alcatra, e no seu gosto para espetar alegra-campos no pão de cabeça das esmolas. De resto, aqueles dois dias e duas noites do Capelo eram sobretudo o campo, os cerrados de milho já alto e embandeirado, o moinho do Cabouco onde se metera a ler uma tarde inteira e de onde descobrira um ponto colado ao horizonte - um grande navio de vela que seguia a favor do vento para a banda das Flores» (cap. XVIII).

A atitude da heroína mostra-se-nos, mais uma vez, marcada pela viagem fantástica. Depois de ter vivido dois dias entre o povo do Capelo, Margarida regressa à solidão e lê. E descobre «um ponto colado ao horizonte» («oh minha angústia!» - exclamou Pessoa perante idêntica visão), um barco que apresenta a particularidade de navegar à vela. Esse barco avança para a banda da Flores, se bem que não se dirija a esta ilha. Avança para «outra ilha», a «suposta ilha» de Fernão Dulmo. E assim Margarida estabelece a ponte entre o povo real e o navio-fantasma. É aliás em contacto com o povo - mas desta vez com os baleeiros do Pico - que Margarida mais intensamente vive a sensação de partir para o indefinido: «Sentada no banco do mestre de uma baleeira do Pico, de costas para o Campo Raso, Margarida ia talvez na nau do capitão Fernão Dulmo, o seu tetravô flamengo, aproada ao mormaço e ao fantasma de uma terra suposta, para a banda das Ilhas da Fortuna... e o tio Roberto, com o seu cachimbo aceso, à ré, na ponte de outra...» (cap. XXIX).

A complexidade psicológica de Margarida - esse duplo do ser inigualável que foi Vitorino Nemésio enquanto homem sensível, culto, erudito, aberto a todas as manifestações humanas, tão apto a discorrer sobre a última doutrina filosófica como a recolher uma fábula da boca dum pescador - chega por vezes ao paroxismo. Mulher profundamente enraizada no condicionalismo do seu lugar e do seu tempo, ela é simultaneamente a desenraizada no plano de qualquer projecto, de qualquer realização material: «E, vendo o céu azulado, adivinhando o mar pela ressonância remota e permanente que era como a alma da casa, ouvindo os ladridos do Açor desesperado na casota, pensou que, se se quisesse servir da sua personalidade verdadeira, ela não estava ali: andava errante e aliviada algures, como que a reboque do seu vulto encostado na cama» (cap. XIX). Nesta tessitura onde nada se encontra por acaso - desde o rumor do mar semelhante à «alma da casa» até à clausura do cão, «desesperado na casota» - assume especial relevo a imagem «a reboque», alma a reboque do corpo, cisão irremediável que só ilusoriamente se supera (e que o autor superou, ele sim, mas apenas nas páginas que nos legou).

Esta crise de personalidade da heroína (crise que, como veremos, também atinge, embora de modo diferente, João Garcia) torna-se explícita não no plano do real pragmático - no qual Margarida, graças a certa «virilidade», consegue dominar as aparências, pelo menos as aparências - mas sim no plano·do onírico. Já chamámos a atenção para a ténue fronteira que por vezes separa, no sentir de Margarida, o devaneio e o onírico. Podemos, todavia, apresentar um exemplo em que o onírico alcança a primazia:

«Margarida então sonhou que ia a bordo de um grande paquete, como os que a agência da Fabre Line espalhava em cartazes por todas as aldeias do Faial e do Pico. Mas não ia para a América, nem para Londres, nem para nada... nem o vapor era mais que um grande porão cavernoso e cheio de breu. Não havia primeira classe, nem camarotes, nem mesa alguma, parecendo um milagre ou uma troça aquele piano invisível em que atropelavam Debussy. O primo José de Lemos, que a acompanhara a bordo, prometera apresentá-Ia ao comandante; ela agarrara-se-lhe às abas do casaco, e assim percorriam os decks empilhados de caixas e de sacos, como nas brincadeiras em que uma roda estúrdia cerca o Senhor Ladrão e se põe a dar voltas pela casa até chegar à cozinha. O tio Roberto devia embarcar também; mas que era dele? Um preto vestido de ganga sacudia uma grande campainha. Depois, um rolo de fumo empestava o paquete; um piloto de barba por fazer puxava na ponte o arame da válvula da caldeira: três urros tristes como o Funchal saindo a Doca.

«O primo José de Lemos tinha desaparecido; Margarida perdera-se atrás de uma pilha de fardos. Queria gritar e não podia. Uma gaivota veio e levou-lhe um bocado de cabelo. Tropeçou noutros fardos: Cotton-Checks. Foi então que uma freira, soltando-se de um molho de cabos, se pôs a olhar para ela com olhos de compaixão por baixo da cornette que adejava, engomada, como uma andorinha ao vento: «Fuja, menina! Fuja! Olhe esses ratos!» «Para onde vai isto, irmã?» «Não sei! Vimos de Java...»

«Então, agarrando-se à saia da irmã e seguindo-a por um corredor sem fim, que cheirava a corda e a azedo, Margarida pôde esconder-se numa espécie de cela a bombordo, com um crucifixo, uma lamparina de cápsula e um pronto-socorro no chão. A irmã obrigara-a a sentar-se e contava-lhe uma história misteriosa, que tão depressa falava de S. Luís, rei de França, no meio dos pestosos de Tunes, como num rapaz sem pai nem mãe que estava para casar quando ela professou» (cap. XXII).

A revelação onírica, na sua natural atabalhoação, agrupa o barco e o rumo «nem para nada», logo a morte sob a simbologia marítima dum «grande porão cavernoso e cheio de breu». As lembranças próximas, englobando relações sociais e a música de Debussy, estropiada, são deformações do real quotidiano. A carga fantástica do barco retoma o tema da actividade comercial da família Clark, ameaçada de falência e como que já defunta no perpassar sonâmbulo de Margarida pelo navio-fantasma. A ausência do tio Roberto é o presságio da morte dele (virá a morrer de peste, no Pico). Mas o que mais impressiona neste texto onírico é, sem dúvida, a aspiração à paz do claustro que jaz no subconsciente e produz a imagem da freira. Freira que, por estranho que pareça, viaja. Barco e solidão. Fuga da vida secular, rumo ao nada.

Note-se que uma gaivota subtraiu a Margarida «um bocado de cabelo» e que a cornette da freira se parece com «uma andorinha ao vento». Esta simbologia do pássaro - a ganhoa autóctone, no primeiro caso; um pássaro que mal se vê nos Açores, no segundo - aponta para um dado silencioso: a pomba do Espírito Santo, essa corporização impossível daquilo que é permanente Espírito na criação e na destruição, na língua de lume (vulcão) e na celeste brancura (purificação). E repare-se finalmente nesse «rapaz sem pai nem mãe que estava para casar quando ela professou». João Garcia, obviamente! O burguesinho licenciado em Direito graças às jogadas habilmente tecidas pelo pai, J anuário Garcia, o qual, por simples suspeita de cornadura, se desquitou da esposa. Volvido órfão no sonho de Margarida, esse deserdado (que ela talvez tenha amado) desliza perante uma Margarida que já não é deste mundo. E assim se faz justiça! Ou assim se faria justiça se o sonho fosse realidade: a sombra de João Garcia em frente da sombra conventual de Margarida Clark Dulmo. E entre duas sombras o mito da ilha perdida, da tal onde o paraíso se teria restabelecido nos corpos de Adão e Eva...

Margarida acaba por excluir João Garcia do seu mundo sentimental. Por dois motivos: a moleza do pretendente e a inimizade das famílias. Se a segunda destas razões costuma ser decisiva (evoquemos somente Teresa de Albuquerque, do Amor de Perdição, obrigada a entrar num convento...), o lado vigoroso do carácter de Margarida leva-nos a supor que a exclusão de João Garcia se deve antes à tibieza do jovem, à sua incapacidade de desafiar o mundo em nome do amor. Esse o erro irreparável! No fundo, Margarida sente-se ofendida pelo «bom comportamento » social de João Garcia, muito apegado às normas, muito cumpridor em todos os domínios, incapaz do gesto aventureiro que poderia alterar a rotina daquele meio dormente. Antes, porém, da imposição da razão de família (essa razão de Estado em âmbitos mais modestos), surge no universo afectivo de Margarida uma personagem que parece conciliar o amor com o pragmatismo. Trata-se de Roberto Clark, o tio vindo de Londres, filho natural do velho Clark e de Ana Silveira, que sofreu na solidão as consequências do seu desvario. Roberto, filho da transgressão, uns dezassete anos mais velho que Margarida, possui, aos olhos desta, uma certa aura romântica. Seguro, muito british, culto, razoavelmente rico, ele seria a pessoa indicada para salvar da falência a abalada família Dulmo. Mas a inclinação de Margarida por Roberto mostra-se-nos muito imbuída de dedicação filial. E tudo acaba com a morte inesperada de Roberto, vítima da peste.

É a partir deste acontecimento que o caminho se encontra livre para André Barreto, o rico herdeiro do barão da Urzelina. André é um rapaz perfeitamente adaptado ao meio, à classe, ao mormaço ilhéu. Correcto, aprumado, fidalgo. Sem chama, sem rasgos, sem espírito de aventura. E Margarida, afastado João Garcia, morto Roberto, transige. O claustro foi apenas mais um devaneio. É preciso viver o quotidiano. O melhor partido para ela e para a família é André Barreto. A «aranha» - como tantas vezes Vitorino Nemésio qualifica a teia dos interesses económicos - ganhou a partida. 'Pacientemente colocada ao centro da armadilha, restava-lhe aguardar a hora do triunfo. Margarida transportará doravante a sua «ilha perdida» com resignação. Apenas alguns sinais nos revelam a sua interioridade defraudada. Por exemplo: «André estranhou Margarida. Parecia-lhe mais branca, dócil e como que imaterial» (cap. XXIVI). Ou então: «André, silencioso, aproveitando a roda desfeita, apoderara-se de uma ponta da toalha e examinava aquele pormenor da pomba de filosel, como ramo no bico entreaberto, como que espavorida» (id.). Anote-se que a pomba da renda é obra de Margarida...

Por um caprichoso acidente da caça ao cachalote, Margarida é levada até à ilha do futuro marido: São Jorge. Cachalote ou destino, algo a impeliu para André Barreto. Ao pisar o solo de São Jorge, onde lhe dará guarida o barão da Urzelina - como se a futura nora lhe fosse atirada pelas ondas -, Margarida ainda cultiva por instantes a ilusão de ter encontrado a ilha perdida: «Escurecera de todo. Do lado da terra, enrugada e quase a pino sobre aquela nesguinha de litoral abordável, tinha-se a impressão de um ermo, uma promessa de chão ainda por firmar, quem sabe se até por descobrir?...» (cap. XXX). Ilusão que gradualmente se irá desvanecendo («Só então Margarida se deu conta de que estava deitada na caverna de uma ilha que parecia deserta, embrulhada no pano de uma vela, no meio de homens a quem o sono e o cansaço tinham devolvido o instinto e o bruto calor da natureza») até gerar a consciência angustiada de que futuro e passado se uniram na efectiva perdição do amor: «Tantos... tantos cavaleiros andantes da sua mocidade embrulhada no sudário duma vela!...»

A ilha perdida não desaparece, porém, com a capitulação de Margarida perante o mundo real. Ela permanece no âmago da ficção nemesiana como mito inarredável, irremediável, fonte de conflito e de criação artística. Ela alastra pelo Arquipélago açoriano e oferece ao artista o seu aceno: «Mais longe, fechando com reticências aquela abordagem sonhada, ilha que céu e mar tornavam cartográfica 'e suposta como a descoberta de Fernão Dulmo, viam-se os ilhéus dos Fradinhos, que uma lenda ligada a um desterrado do ilhéu das Cabras convertera em aparição petrificada da hora em que o homem vê claro o bem e o mal que fez» (cap. XXXVII).

E se para Margarida Clark Dulmo a ilha perdida permanece como solidão entre os vivos («Em suma: muito aparato, muita gente... e, no fundo, um bordão de peregrino desolado no ar à voz de 'Ninguém! Ninguém'» - id.), para o estudante João Pragana, pobre, ex-seminarista e poeta, esse mito é o renascer de mais uma aventura. O estudante, ao trocar ocasionalmente algumas palavras com Margarida, exclama: «Tem graça!... O seu apelido é o mesmo de um navegador que se diz que descobriu uma ilha ao norte da Terceira, o capitão Fernão Dulmo...» (cap. XXXVII).

Passagem de testemunho. Enquanto houver memória, a «ilha perdida» passará de geração em geração.

*

A ilha perdida infiltrou-se aliás no espírito de outra personagem de Mau Tempo no Canal: João Garcia, o tíbio, filho dum antigo empregado da firma Clark.

João Garcia, na ficção de Vitorino Nemésio, «nasce» à sombra do seu amor por Margarida. E o leitor não deixará de estranhar o seguinte facto: Nemésio informa-nos do drama familiar de J anuário Garcia, da maneira como pôs a mulher fora de casa, de antecedentes menos ortodoxos da família (como os que se referem à macróbia tia Secundina, amásia de cónego, senhora dum vocabulário indecoroso), mas do passado de João Garcia não nos dá senão uma pálida imagem. O que sabemos de João Garcia, no início do romance, é que ele estudou em Coimbra. Parece um ser destituído de passado: nem uma aventura estudantil, nem a menor marca dos anos que viveu no Continente, nenhum afecto, nenhuma revolta, nenhuma decisão. É como se regressasse à ilha envolto numa estranha «virgindade».

Se o autor se detém um pouco mais na vida militar a que João Garcia foi obrigado em Lisboa, nem por isso a personagem adquire então maior densidade: João Garcia é, enquanto traço distintivo no magote dos milicianos, apenas mais aplicado que a maioria, levando a sério a chateza das questões balísticas, mais a táctica, a estratégia e o aprumo - coisas que um homem de formação universitária normalmente repele. ·Essa aplicação de João Garcia às questões militares é como que o anúncio da sua passividade... E se o autor se demora um tanto nesses pormenores, tal facto resulta da dependência em que a personagem já se encontra em relação a Margarida. É a esperança duma carta que serve de fio narrativo.

Tímido até em matéria epistolar, João Garcia não pode evitar o destino dos fracos, dos quais se diz que «não reza a História»: «João Garcia não podia explicar o motivo por que não se decidira a mandá-Ia [uma carta para Margarida]. Se buscava razões objectivas, ligadas à própria vontade, encontrava talvez o receio de Diogo Dulmo a interceptar na Horta, apesar de ir sobrescrita a D. Corina Peters. Mas logo a lembrança do embaraço que sentia quanto à maneira de combinar as suas confissões a Margarida com os tagatés devidos à meditação da poetisa - se iriam ambas as missivas soltas no envelope lacrado, ou a de Margarida protegida por um segundo envelope interior (aberto! Naturalmente...) - convencia-o de que era um nada que o retinha, um motivo puramente material que a última hora da mala tornava irremediável. Havia pois uma espécie de paralisia no seu carácter; Margarida vivia dentro dele estagnada, como um nenúfar num charco que um luar de morte aviva. Luar - aquele gosto de a sentir sempre longe, sugerida e desejada sem um apetite preciso» (cap. VII).

O «longe» instalou-se no desejo tornando-o irrealizável. Não se transforma aqui o amador na coisa amada, antes a «doença» da mulher amada - a sua ilha perdida alastrou no espírito do amador. Este contágio, que no mundo físico se traduzirá em peste, também está na base dum universo de presságios que percorre o romance duma ponta à outra.

Contagiado, pois, pela febre do «longe», João Garcia, o acomodatício, também sustenta o seu devaneio: «A vida de João Garcia seria aquela literatura das noites na Biblioteca Municipal, e o Cota presidindo à leitura e tamborilando a medida dos sonetos na ponta do mata-borrão?... Ou era o seu amor vivo: vê-Ia, tê-Ia, casarem para fora da ilha e porem casa em Bragança, ele secretário-geral e livre daquela capa de aspirante miliciano que lhe garantia à força um lugar nos cabides do Real Clube Faialense e o direito às vasas do whist no canto oposto aos fauteuils onde os rapazes atrevidos ou finos tratavam por tu as trinta meninas das famílias smart do Faial?...» (cap. VIII).

Quando chega a Semana Santa, momento de ruptura, a «ilha perdida» surge-lhe como presságio de estagnação: «Aquele dia santo no quartel pareceu a João Garcia uma ilha no mar da sua vida incolor, sem vento para vela alguma» (cap. XIII). Confronte-se a tibieza desta emoção com a agressividade dos sonhos de Margarida, sempre pronta a «navegar» para a suposta ilha de Fernão Dulmo.

Essa tibieza não deixa porém de apresentar alguns momentos de insatisfação mais vigorosa: «Naquele convento agora reduzido a quartel ao alto da cidade, defronte do Pico arroxeado das nuvens do mar ao entardecer, sentia-se na posse duma força que vinha do fundo dos tempos, quando as ilhas não tinham ainda sinal de nada humano: escritórios, chapéus de coco, pianos...» (cap. XIII). São esses clarões de rebeldia que o aproximam fugazmente da 'estatura medularmente rebelde de Margarida Clark Dulmo. Como tudo O que é insuficiente neste mundo, a coragem de João Garcia não chega a dar frutos. Há, no entanto, nesse clarão de coragem a rejeição da sociedade faialense, dos «escritórios, chapéus de coco, pianos». Só que em Margarida a rejeição é a de quem possui, por sangue e condição, o direito à ilha perdida, ao passo que a rejeição de João Garcia se situa aquém, como se o pequeno-burguês promovido a bacharel e a oficial miliciano preferisse a fuga à luta por um lugar ao sol –lugar que só lhe é concedido nos «cabides», processo exímio de o autor significar quão pouco concedem aos adventícios esses meios fechados na sectorização das castas. Tudo parcial, tudo insuficiente, tudo de molde a fomentar ou corroborar a incapacidade de João Garcia. Mesmo a sua fragmentária semelhança com Margarida no tocante ao desejo de evasão acaba por revelar uma profunda diferença, um abismo insuperável.

João Garcia é como o desenraizado que, incapaz de solucionar o seu desenraizamento, se deixa vegetar em terreno hostil, magicando a evasão que nunca porá em prática. Em vez da acção, da audácia, do salto decisivo (ou viver nessa sociedade; ou romper com essa sociedade), ama com lógica (o que é mau) e raciocina com amor (o que é péssimo). A tais confusões chama o autor «construção de um tímido, uma dialéctica e mais nada» (cap. XIV). O próprio João Garcia tem consciência da sua fraqueza, o que a torna ainda mais dolorosa: «O amor não queria confissões explicadas no vão de uma janela, nem alegorias literárias de um querer-bem concebido como matéria de um mito, ligado à rocha das ilhas e às noites de mau tempo no Canal. Assim perdera o segredo daquela ocasião de uma valsa, como quem deixa cair uma minhoca inevitável debaixo dos pés de uma rapariga que tinha mais com quem dançar. Triste e alheado na cadeira, a reflexão de João Garcia, agora exercida no estilo dos teoremas da Táctica, foi trabalhando nele um pensamento preciso, numa substância dura como se não fosse uma frase: 'O amor de um mito é puro mito'» {cap. XIV).

Aquele que virá a ser objecto dócil das manobras económicas, mais uma vítima da «aranha», acaba por se arrastar neste mundo como uma sombra, sabendo no entanto - ou melhor, pressentindo - que lhe negam o direito de decidir do seu futuro. Quando Laura lhe é colocada diante do nariz, como isco destinado a aumentar os bens da família, ele limita-se a aceitar, como quem encolhe os ombros diante do destino: «João Garcia ouvia tudo aquilo como se entre ele, o tio, a irmã e Laura tivesse caído um nevoeiro, uma coisa fosca e movediça que esfuma gente perdida num grande descampado. Eram vozes e gestos que o ouvido e a vista mal ligavam. No fundo de si, a visão de Margarida insistia como um retrato que foge à sua semelhança terrena: uma pessoa que, adivinhando passos, se embuçou. Mas a lâmpada baixada, dourando a cabeça de Laura, compunha aquelas criaturas, em volta das cartas de jogar, com um ademã de mistério» (cap. XVI).

Guardar a «ilha perdida», Margarida, a mulher impossível, silenciar o desejo, ser inerme - tal parece a vocação de João Garcia. Só o vinho lhe proporciona uns instantes de confissão libertadora. Vinho bebido a desoras e um tanto secretamente - não vá a Horta saber, claro! Só mergulhado na embriaguez se lhe abre a válvula da imaginação. E, tornando-se sensível a narrativas oriundas das Américas, resolve brindar ao «amor funesto» - rasgo teatral, meio. grotesco meio trágico, porquanto o discurso de João Garcia é a expansão das frustrações do orador: umas por temperamento, outras devidas ao· meio, outras ao amor («Erros meus, má fortuna...» mas não «amor ardente» - poderia comentar-se): «- Eu brindo a Grete e ao seu amor funesto! Onde estás, que me foges? Não te lembras daquela noite em que ias de cabelo ao vento à beira de um precipício?... As minhas mãos pálidas agarravam-te os dedos pequeninos! Quem partiu os milhafres dos azulejos daquele parque nocturno no Arizona e cegou para sempre a serpente de bronze, nossa confidente e cúmplice?... O teu vestido leve prendia-se às silvas dos atalhos... Ias de noiva à chuva que te encharcava os cabelos... Eu corria no escuro e chamava-te em vão! A seiva das árvores ardia no vento que nos levava. 'Grete! Grete!...' -'Não! Não! Deixa-me; eu volto!...' 'Quem rasgou, quem poluiu os meus lençóis de linho?...' (Mau... Isto é do Camilo Pessanha!) 'Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)' o ramo da velha laranjeira que se enganou nas flores?... Foi no Arizona?... No Pico?...! Diz, Damião, pelo amor de Deus! Fala-me de Grete! Anda lá...» (cap. XVII).

João Garcia não é capaz de mais: nem no amor nem na literatura, nem na fibra, nem no sexo! Restos românticos nas «mãos pálidas», reminiscências duma delicadeza ridícula nos «dedos pequeninos»! Algum Camilo Pessanha na poluição dos lençóis de linho, inequívoca adaptação ao suposto adultério da mãe. Mas, de qualquer forma, o fascínio da lonjura: Arizona ou ilha do Pico, tanto faz! O álcool, como droga, é que lhe ofereceu a «viagem»! Porque, no quotidiano, João Garcia é silencioso...

Silencioso, apesar de assomos de lucidez. Quando a futura mulher, Laura, começa a revelar-lhe um temperamento sagaz, calculista, cruel, diz-nos o autor que «os arrufos de·Laura pareceram-lhe o episódio mesquinho de um jogo de gato e rato, uma cabra-cega em que a única realidade agarrada era aquela ilha vendada de nuvens e de gaivotas» (cap. XXI).

João Garcia destrói a sua ilha perdida num gesto de submissão que roça o desinteresse. Ele ficará entregue à teia da «aranha». Margarida, por sua vez, submete-se a outra «aranha», ciente de que a ilha perdida continuará a viver na interioridade intransmissível da sua alma. Entre ambos a diferença é qualitativa: na mulher, a conservação mítica; no homem, a dispersão inútil. Se bem que, no campo estrito da vida real, ambos signifiquem, mais que ilha impossível, uma geração perdida (qual a geração que o não é?).

 

José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978, pp. 83-107.

 

 


MAU TEMPO NO CANAL

Proposta de produção de textos expositivo-argumentativos


 

 

 

TEMA DE DESENVOLVIMENTO 1 

O Amor, componente fundamental da condição humana, é representado de forma diversificada no universo ficcional.

Reflicta sobre as manifestações de que se reveste esse sentimento no romance Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio.

 

CHAVE DE CORREÇÃO 

O tema do amor – uma constante na literatura. 

No romance Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio: 

As relações amorosas centradas em Margarida:

 ‑ Margarida/João Garcia – assumida por Margarida mas contestada pelas duas famílias. Ruptura posterior;
          ‑ Margarida/Roberto – desejada pelos Clarks para salvar as finanças, assumida por Margarida que tenta fugir à insularidade. Ruptura definitiva com a morte de Roberto;
          ‑ Margarida/André Barreto – a aparente aceitação das mentalidades e dos valores que contestara.

As outras mulheres têm dificuldade em transgredir a ordem estabelecida. Como tal, sujeitam-se a casamentos impostos pela família e aceitam o “modus vivendi”. 

Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano. 1996, 1ª fase, 2ª chamada.

 


 

TEMA DE DESENVOLVIMENTO 2 

Leia atentamente a afirmação seguinte, feita sobre Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio: 

Peça embora de um jogo/drama coletivo, Margarida ultrapassa largamente tal condição: através dela propõe-se uma visão crítica e um juízo de valor sobre a totalidade contraditória do espaço humano (socioeconómico e cultural) e físico onde se encontra."

Maria Lúcia Lepecki, Meridianos do Texto

 Elabore uma dissertação em que aborde de forma desenvolvida e fundamentada a questão da importância do ponto de vista da personagem Margarida para a construção da visão crítica presente no romance.

  

CHAVE DE CORREÇÃO 

As linhas de força que constroem a visão crítica presente no romance reconhecem-se na personagem de Margarida:

‑ na personalidade de Margarida combinam-se a sensibilidade, a inteligência, o bom senso, o espírito crítico;
‑ Margarida apresenta um ponto de vista crítico sobre o domínio, que têm o dinheiro e a posição social, na estrutura familiar patriarcal;
‑ ao namorar o filho do inimigo do pai, Margarida desvaloriza a oposição Clarks-Dulmo l Garcia;
‑ apesar de amar Roberto, Margarida rejeita ser joguete na trama dos interesses familiares;
‑ a renúncia, que o casamento com André Barreto representa, põe em evidência os valores predominantes;
‑ Margarida racionaliza a vida da mãe como uma vida perdida em nome de coisa nenhuma;
‑ para além do seu drama pessoal, Margarida sente e racionaliza o drama coletivo da pesca da baleia, dos pobres, da peste...
‑ Margarida trata o criado doente com carinho e dedicação;
‑ em viagem, no convés do barco, Margarida confraterniza com o passageiro de terceira classe, adotando uma posição contestatária;
‑ Margarida tem consciência do contraste entre a miséria do povo e a riqueza dos senhores da terra;
‑ Margarida reflete o conjunto dos problemas da família e da comunidade;
‑ Margarida vê a verdadeira face da totalidade do espaço humano onde se encontra. 

Dentre o conjunto das personagens do romance, Margarida destaca-se como sujeito de um ponto de vista crítico, presente no romance. 

Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano. Prova Modelo de 1997.

 


 

TEMA DE DESENVOLVIMENTO 3

 

Leia atentamente a afirmação seguinte, sobre Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio: 

“Mas o que distingue Mau Tempo no Canal dum qualquer mundo fantasmagórico é o rigor com que mitos e sonhos se enraízam na realidade física insular.” 

José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978.

Elabore uma dissertação em que aborde, de forma desenvolvida e fundamentada, a questão da importância da paisagem geográfica, física e humana no romance Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio.

  

CHAVE DE CORREÇÃO 

Em Mau Tempo no Canal a dimensão simbólica e romanesca da narrativa nunca esbate a realidade geográfica insular que está presente com bastante rigor:

 - a realidade das ilhas naquela época, quer no aspeto físico, quer no humano, pode ser reconhecida no romance;
 ‑ a ação decorre nas ilhas do Faial, Pico, São Jorge, Terceira, havendo referências pontuais a outras ilhas;
 ‑ o Faial e a cidade da Horta são o lugar central da intriga romanesca;
 ‑ a Horta é apresentada como uma cidade tradicionalista e fechada, mas, ao mesmo tempo, cosmopolita, devido ao seu porto que permite contactos como estrangeiro;
 ‑ da ilha do Pico são retratadas com realismo a força e a resistência dos homens na faina da caça à baleia;
 ‑ da ilha de São Jorge é dada a imagem fiel de um maior isolamento, de um mais difícil acesso e de menor desenvolvimento;
 ‑ da Terceira fica-nos, sobretudo, a imagem do gosto pela tourada, pela animação e pela festa;
 ‑ pode, pois, ler-se Mau Tempo no Canal em busca do reconhecimento rigoroso da realidade insular açoriana de uma época, onde se cruzam várias histórias.

Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano. 1997, 2ª fase.

  


 

TEMA DE DESENVOLVIMENTO 4 

Considere a citação a seguir transcrita referente a Mau Tempo no Canal e comente o juízo crítico apresentado, fundamentando-se na sua experiência de leitor. Redija um texto bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras. 

“O desejo insidioso de evasão, de sentir-se levada, de viajar, é uma constante da vida de Margarida”

Maria de Jesus Maciel, «O Pico na prosa de Vitorino Nemésio”, Conhecimento dos Açores através da literatura, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 1988.

  

CHAVE DE CORREÇÃO 

  Ânsia de evasão, visível nas deambulações de Margarida (passeios pela quinta, subida ao Pico, ... ), no seu desejo de partir (regressar a Lisboa, empregar-se em Inglaterra), na afirmação da sua rebeldia face à rotina do seu meio familiar, mas, e simultaneamente, profundo enraizamento no seu lugar e no seu tempo e perturbante lucidez na observação do mundo que a rodeia;
  atração pelo mar, vontade de solidão, entrega ao devaneio, fascínio pela leitura de livros de viagens, de aventuras, pelas histórias míticas do tetravô Dulmo;
 •
sentimento de bem-estar, quando se encontra entre as pessoas do povo (Manuel Bana, Ti Amaro, gente do Capelo), em quem reconhece uma vitalidade ausente do seu meio familiar, e junto das quais vive a mais intensa experiência de se sentir levada (os baleeiros do Pico);
 •
...

 

Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano. Prova Modelo de 1999.

 

 


GLOSSÁRIO DE REGIONALISMOS
E FORMAS DIALETAIS AÇORIANOS

EM MAU TEMPO NO CANAL

 

 

A modo - uma espécie de

Adamado - fino

Ala bote - vamos embora

Altre Bansaúde – Walter Bensaúde.

Alvarozes - espécie de fato-macaco (over all)

Aquilho - aquilo

Arrenegado - irritado, mal-humorado

Ariôche, Arriôche- Ingl. Artk Ocean, Oceano Glacial Árctico

Assanta - assenta

Asservei - aguentei

Assucedero - sucederam

Bagacina - cascalho

Baila – Ingl. Handle biller: balde de ferro, de cabo comprido, empregado na recolha do óleo de cachalote.

Bastão – Boston

Bença - benção

Bergues icebergs

Betefete – New-Bedford.

Bispeta – meninas bispetas: meninas ricas e muito mimadas, vazias, artificiais e petulantes

Blós – Ingl.: She blows; "ela esguicha", falando-se do jacto da baleia.

Boeiro (bueiro) – Buraco/escoadouro nas ruas para as águas da chuva

Cabidar - castigar, corrigir

Caçoar – ridicularizar

Caise - quase

Cal’te siqué - «Cala-te sequer», «cala-te, mas é», «Cala-te, boca»

Calafona - californiano (a)

Cambra – Câmara

Canoco – caduco, tonto

Causos - casos

Chamatão - escândalo

Charape - Shut up!

Chipeiras – Ingl. Spades: instrumentos cortantes empregados para decepar as baleias.

Chomar - chamar

Cobranto - quebranto

Coca - Laça ou prisão da linha.

Cocos – Inhames

Colacia – Confiança de irmão colaço.

Coma - como

Cotão – Blusa ou chambre de algodão.

Cunduito - conduto, alimento substancioso, para além do pão

Cuntar - contar

Dabne – Dabney

De rópia - de rompante

Demira - admira

Denis –Adónis (Walter Bensaúde)

Destoitiçado - sem juízo

Enfaiscados – Emoldurados

Escabaçadas - tortas, partidas

Escopação - Vestimenta, vestuário.

Espalmo – Jacto de baleia.

Estravanquear - estragar, esbanjar de forma desgovernada

Froca - Ingl. Frock: espécie de blusa de homem.

Grave – "Ao grave": de sabedoria; coisas profundas.

Gribalde - Garibaldi

Hoij'im dia - hoje em dia

Immentes (emmentes, ementes) - (origem controversa, talvez de em- + [entre]mentes) adv. 1. [Regionalismo]  Nesse intervalo de tempo. = entrementes, entretanto; s. m. 2 núm. [Regionalismo] Tempo intermédio. = entrementes, entretanto; conj. 3. [Regionalismo] Enquanto (ex.: costumes praticados pelas mulheres ementes eram solteiras).

Imparador - imperador

Impeirado - quieto

Incarrilhadinhos - encolhidinhos

Incorete - bote

Injarrobas - botas de borracha (ingl. indian rubber)

Inté - até

Japanis - Ingl Japanese, Japoneses (Mares do Japão).

Jaziga - Na fala picareta: oportunidade para a manobra.

Lagaiéte - Ingl. Log head: cepo cilíndrico fixado verticalmente no leito da proa das canoas baleeiras, em torno do qual corre a linha presa ao arpão enterrado no cachalote.

Lambique - alambique

Lambusães – Lobisomens.

Lançar – vomitar

Lastro – “dormir a lastro”: dormir em cama feita no chão.

Magolha - Logro, ardil; trapaceiro.

Mancins – Ingl. Sawing-machine (?): cutelo com dois cabos no prolongamento das costas da lâmina.

Maniada - com manias

Marqueta - Ingl. Marcket: mercado.

Mitio - metiam

Mònim - Ingl.: monney.

Mordemia - mordomia

Mum – Mui, muito.

Munto - muito

Nã s'afreime! - não tenha medo! (ingl. afraid)

Nantaque – Ingl.: Nantucket.

Negrão – Ingl. Western Ground, Mar das Antilhas.

Nisquinha - naco

Ò grave - ao grave, coisas sérias

Oitra - outra

Oivir - ouvir

Pacoetas - historietas

Palristo – Espantado, parvo. (Origem duvidosa. Talvez tenha relação com "pá rar".)

Portandi - pretendi

Povaredo – muito povo, multidão

Prepoção – proporção

Promeira – primeira.

Pulaiéte - Ingl. Pull ahead!: puxa!

Rofe - Ingl. Rough: áspero, agitado.

Saguão - vestíbulo das casas a que dá entrada a porta principal: o portão. O "saguão" das casas antigas é lajeado ou empedrado

Semenos (somenos) - razoável, sofrível

Sinais dobrados - som do dobrar dos sinos a finados

Soldada - salário

Soleta – entrada, soleira, limiar da porta

Sueira, suera - camisola (ingI. sweater)

Tamém - também

Tîmes - tínhamos

Tirante - tirando

Trabanaclo – Tabernáculo ou estrado de madeira fixo a um canto do quarto princip (o mei' da casa) das casas pobres, aproveitando o vão da janela.

Um mistério d'um margulho - um grande mergulho

Veneta - mau génio; acesso repentino de loucura; [Por extensão]  mania; tineta; telha. “Dar na veneta”: vir à ideia.

Vêrim - verem

Viço -vício

Vriança - vereação

Zambre – Zarolha

 

 

                                  

                                                               LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO      JOSÉ CARREIRO, 2012-08-22