VITORINO

NeMÉSIO

A obra de Vitorino Nemésio reflete inequivocamente a vivência açoriana imbuída de religiosidade irónica e de pitoresco costumbrista. Os dois romances constituem uma espécie de ciclo de aprendizagem. Do seu estilo ressalta a comparação e a pormenorização. Na poesia, assistimos a uma procura incessante da palavra e do sujeito. É fundamental o papel da memória e da saudade, assim como a obsessão da morte, obsessão que vai evoluindo de uma angústia profunda até uma aceitação pacífica e desassombrada.

"Geração da Presença – Vitorino Nemésio", Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho,
História da Literatura Portuguesa. Volume 7. As Correntes Contemporâneas,
Lisboa, Publicações Alfa, 2002

 

 

 

 

 

ÍNDICE 

Perfil biográfico e literário

Vitorino Nemésio: a vida atribulada

Vitorino Nemésio, o ilhéu do mundo

Do paroquial ao universal / Unidade e diversidade em Nemésio

Perfil poético

Nemésio: uma espécie de humildade

Diversidade temática e formal da poesia de Vitorino Nemésio:

Diversidade poética ‑ do saudosismo e da «Presença», ao surrealismo e outras experiências estéticas.

Dois ciclos temáticos: a saudade da infância e a meditação religiosa

O mar e o navio

Temas da poesia culta e da poesia de cunho popular

A concepção de poesia e de poeta.

 

 

Leitura orientada de poemas:

OBRA

POEMA

INCIPIT

A Fala das Quatro Flores (1920)

[A / Quem]

A / Quem me atulhou o peito

Eu Comovido a Oeste (1940)

[Aquele cais ali, agudo e nu]

Aquele cais ali, agudo e nu,

Eu Comovido a Oeste (1940)

(Versos a uma cabrinha que eu tive)

Com seu focinho húmido

Eu Comovido a Oeste (1940)

[Senhor, nas minhas veias]

Senhor, nas minhas veias

Eu Comovido a Oeste (1940)

Noite, matéria da morte

Noite, matéria da morte,

Eu Comovido a Oeste (1940)

Poema 12

Lembro o que perco. Estranho

Eu Comovido a Oeste (1940)

Poema 17

Pus-me a contar os alciões chegados

Eu Comovido a Oeste (1940)

Poema 18

Sombra, leva mais longe a tua linha,

Eu Comovido a Oeste (1940)

Poema 30

Na ave que passou

Festa Redonda (1950)

Cantigas de Terreiro (II)

Ponha aqui o seu pezinho

Festa Redonda (1950)

Quatro coisas são precisas

Quatro coisas são precisas

Nem Toda a Noite a Vida (1953)

Barcarola

Viemos de vagar. Vim de vagar.

Nem Toda a Noite a Vida (1953)

Lição de coisas

A exatidão serena de uma flor

Nem Toda a Noite a Vida (1953)

Navio

Tenho a carne dorida

Nem toda a Noite a Vida (1953)

O ovo

Enchi de Oeste a minha vida,

Nem Toda a Noite a Vida (1953)

Retrato   ¯

Cruel como os Assírios

 

O pastor morto

De madrugada a neve envidraçou-o.

O Bicho Harmonioso (1938)

A concha    ¯

A minha casa é concha. Como os bichos

O Bicho Harmonioso (1938)

Azorean torpor    ¯

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:

O Bicho Harmonioso (1938)

Correspondência ao mar

Quando penso no mar

O Bicho Harmonioso (1938)

Imagem

Todas as tardes levo a minha sombra a beber

O Bicho Harmonioso (1938)

Navio de sal

Quando eu era pequeno, vinha o navio de sal,

O Bicho Harmonioso (1938)

O canário de oiro

Se deixo entrar este canário de oiro

O Bicho Harmonioso (1938)

O paço do milhafre

À beira de água fiz erguer meu Paço

O Bicho Harmonioso (1938)

O bicho harmonioso

Eu gostava de ter um alto destino de poeta

O Pão e a Culpa (1955)

Espírito da noite

Espírito da noite, variável

O Pão e a Culpa (1955)

O pão e a culpa

Desde que me conheço sei o pão

O Pão e a Culpa (1955)

Terra de lume

Rezo, dobrado, aos Anjos da manhã.

O Verbo e a Morte (1959)

A Vida é Tempo

Com alma, ideias, tempo, luta

O Verbo e a Morte (1959)

Casa do Ser

Língua, Casa do Ser que lá não mora

O Verbo e a Morte (1959)

O poeta é o portador

O poeta é o portador. Carrega tudo,

O Verbo e a Morte (1959)

O poeta é um mostrador

O poeta é um mostrador. Tal numa ostra

O Verbo e a Morte (1959)

O possível Deus

Pudesse Deus dizer!

O Verbo e a Morte (1959)

Prece

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado

O Verbo e a Morte (1959)

Verbo e Abismo

Já da vaga vocálica dependo

O Verbo e a Morte (1959)

Verbo e Equívoco

Chamo verbo ao equívoco falado

Canto de Véspera (1966)

Poema de uma viagem ao Porto e de uma partida para a Bélgica

As filhas do filho ‑ e o Mundo largamente a elas.

Limite de Idade (1972)

Semântica electrónica   ¯

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado

Sapateia Açoriana (1976)

Natal das Ilhas

Natal das Ilhas. Aonde

Obras Completas, Vol. II – Poesia

Bailia a Guipúscoa

Bailemos no céu de Espanha,

Obras Completas, Vol. II – Poesia

Fonte clara

Fonte clara, fonte clara,

 

 

 

  

 

 

Leitura de Mau Tempo no Canal:

A ilha perdida

Outro Pai (capítulo 1)
Um passeio a cavalo  (capítulo 9)
No tempo da fror (capítulo 18)
Tou co a peste, meu amo!... (capítulo 22)
A aventura de Margarida (capítulo 29)
Cândia Furoa (capítulo 33)
Azorean torpor (capítulo 37) 
A serpente cega (capítulo 37)

Caracterização de Margarida Clark-Dulmo
Caracterização da personagem Roberto Clark 

Proposta de produção de textos expositivo-argumentativos

Glossário

Obra completa para leitura integral

 

 

 

 


VITORINO NEMÉSIO
Perfil biográfico e literário
 

 

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva

N. Praia da Vitória, 19.12.1901 – m. Lisboa, 20.2.1978

Foi uma das figuras mais representativas da Literatura e da Cultura Portuguesas do século XX, pela qualidade literária da sua obra e pela influência do seu magistério universitário e da sua personalidade.

Poeta, contista, romancista, cronista, ensaísta, conferencista, colaborador assíduo de revistas e jornais, comunicador de rádio e televisão, Nemésio foi Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, onde lecionou várias cadeiras (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, História da Cultura Portuguesa). Fez escola primária na Praia da Vitória, o liceu em Angra do Heroísmo e estudou nas Universidades de Coimbra (onde chegou a cursar Direito) e de Lisboa. Ainda adolescente e aluno do Liceu da Horta um ano (devido a comportamento menos regular em Angra...), a cidade faialense e o seu enquadramento paisagístico e social inspiraram-lhe referências fundamentais para o seu romance Mau Tempo no Canal (1944), que Vasco Graça Moura chega a considerar, ao lado de Amor de Perdição, de Camilo, e de Os Maias, de Eça de Queirós, uma das três obras primas do romance português (v. Prefácio à tradução francesa Gros Temps sur L’Archipel, La Difference, 1988).

Foi jornalista em Lisboa, no começo da sua carreira, professor no estrangeiro (Bruxelas, Montpellier, Bahia). A sua experiência cultural europeia valeu-lhe, em 1974, o Prémio Montaigne.

A sua obra e a sua vida apresentam profundas marcas das vivências literárias, sociais, científicas e bélicas do século XX. Assistiu às duas grandes guerras, a segunda das quais transformaria a sua ilha Terceira num porta-aviões (Base das Lajes). Essas transformações e aspetos do mundo da sua infância emergem das páginas de Corsário das Ilhas (1956), livro de crónica de viagens indispensável para conhecer bem os Açores e o homem Nemésio.

A infância e a adolescência decorreram no meio de uma natureza insular condicionante: clima húmido, lava seca, vacas, paisagens agrícolas (terra que «cheira a lava e a pelo de boi ...»), beira-mar, uma vila piscatória e uma sociedade rural patriarcal, gentes que vivem ou da pesca ou da criação de gado, ou de ambas as coisas. A vinda para o liceu de Angra abriu-lhe portas para maior liberdade e para um grande mundo de conflitos sentimentais e ideológicos (sentimentos, amores de adolescentes e iniciações anarquistas no romance Varanda de Pilatos, 1927). A sua ilha natal será presença afectiva perene, espécie de medida de todas as coisas, fonte constante de alusões, metáforas, ensinamentos, paralelos e «correspondências», quando visitava outras e distantes paragens, como as do Brasil.

Em 1916 (tem quinze anos…) publica o livro de poemas Canto Matinal (quisera chamar-lhe Canto Vesperal...!); era então um jovem aluno do liceu de Angra e começa o caminho de uma das mais importantes facetas de escritor: poeta; e poeta é, de facto, um seu lado que muito sobrevalorizava, como confessa na sua «Última lição» (1971) e em programa televisivo dos anos 70 que tinha o nome de «Se bem me lembro».

Em 1922 publica em Coimbra o poema Nave Etérea (realizara-se a famosa travessia aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral), mas seria em 1924, com a publicação de Paço do Milhafre (Prefácio de Afonso Lopes Vieira) que entraria definitivamente na criação de uma literatura referenciada às ilhas e à fala das suas gentes. Recordações e efabulações, ainda relativamente incipientes mas já marcantes, enchem o romance Varanda de Pilatos (1927), que embora demasiado «próximo» dos acontecimentos, é obra a não perder, com a leitura conduzida pelo prefácio de José Martins Garcia (edição da Imprensa Nacional/Casa da Moeda), primeiro «biógrafo» de Nemésio.

No mundo da poesia, decisivo haveria de ser o surgimento de La Voyelle Promise (1935), criação poética «por dentro» da língua francesa (que dominava excelentemente), carregada de vivências insulares. De assinalar a sua ligação ao movimento da Presença (1927), tendo em 1937 criado a Revista de Portugal, ano em que também publicou as novelas A Casa Fechada. Como poeta foi, porém, sempre muito independente («surrealista sem surrealismo»...), pois a sua forte individualidade rejeitava escolas e até as ignorava. O Bicho Harmonioso (1938) é outro livro de referência na trajetória poética do autor (destaquem-se poemas como «O Paço do Milhafre», «A Concha», «O Canário de Oiro»). Alguns livros têm títulos enigmáticos: Eu, comovido a Oeste (1940), em que Oeste é o Oeste do mar atlântico, em cujo centro estão as viagens do poeta e a «força» das suas raízes míticas; em Nem Toda a Noite a Vida (1953) vida e noite têm uma alternância de sentido penitencial introspetivo e dos dois o autor diz que são «volumes de versos que estão cheios de mim e portanto do mar e dos Açores». Mas é em Festa Redonda, Décimas e Cantigas de Terreiro oferecidas ao Povo da Ilha Terceira [...] (1950) que melhor evoca, em poesia ao gosto popular, um mundo de referências, linguagens, cultos e costumes; contem evocações tão importantes que confessa mesmo (em dáctilo escrito contido no Espólio da Biblioteca Nacional (E11, cx. 58) que «é o [seu] livro mais fundamente autobiográfico. Lá met[eu] infância e adolescência e é para [ele] como ouvir o mar num búzio». O Pão e a Culpa (1955) é poesia religiosa, num sentido de aprofundamento bíblico e teológico e de consciência do barro humano. O Verbo e a Morte (1959) é portador de uma tónica filosófica (inclusive leituras de Heidegger), livro onde reside um dos mais belos poemas da insularidade, «Ilha ao longe». E Limite de Idade (1972) é o resultado de leituras de curiosidade científica (Biologia, Medicina, Física Nuclear), de consciência da sua doença e de jogos verbais com as linguagens das ciências: um caso raro de convergência de ciência e literatura onde se inserem preocupações existenciais, a «velha» saudade das ilhas e a «Ilha ao longe»… A preocupação da origem da vida na Terra provocou um dos mais significativos poemas, «Matéria Orgânica a Distância Astronómica». Paralelamente excogitava os problemas do seu tempo nas crónicas que dariam o livro Era do Átomo. Crise do Homem (1976). Uma nova fase de poesia erótica em fim de vida surgirá em Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga, dos anos 70, mas só publicado, em 2003 (Imprensa Nacional/Casa da Moeda, estudo de Luís Fagundes Duarte).

Os céus cinzentos de Bruxelas (onde era então leitor), fortes saudades das ilhas e a vontade de fazer um romance de certa extensão (como também a moda exigia) levaram-no a idear o célebre romance Mau Tempo no Canal. O título já vem em agenda de Nemésio aí por Dezembro de 1937. E em 17 de Janeiro de 1938 escreve a conhecida primeira página do romance, que virá a concluir em Fevereiro de 1944, ano da publicação. «Pareceu-me que fiz um romance das ilhas – a nossa gente, a nossa lava, o nosso mar», como confessa em entrevista (Entrevista ao Correio dos Açores, Ponta Delgada, 27 de Agosto de 1944). Refere-se aos Açores, à Horta, ao Canal Pico-Faial-S. Jorge, também no capítulo final à Terceira, de 1917 a 1919, aos amores frustrados de João Garcia e Margarida Clark Dulmo, contrariados por profundos ódios familiares e diferenças sociais, acabando num casamento de acomodação. Cores, cheiros, luz, nuvens (em profusão caprichosa), a majestosa montanha do Pico, a pesca da baleia, o flagelo da peste, as navegações no porto cosmopolita da Horta, os conflitos sociais, a mesquinhez da intriga, a aristocracia decadente, a burguesia, a pobre gente das habitações rurais, os debates íntimos do sentimento e da razão, da desforra e do olvido, a luta pela vida e o orgulho disfarçado enchem esse romance. Nele também não falta a fala regional, em personagens como o criado Manuel Bana e principalmente o Ti Amaro, trancador de baleias, que andou pelos mares do Norte (o «Ariôche», Artic Ocean) e que preceitua que «pena-se muito nesses mares, mas aprende-se mais que nua esquiola» [numa escola].

A fala é meio picarota meio terceirense, mas resulta como experiência realista de literatura valorizada pelo documento folclórico e antropológico. Era preciso documentar identitariamente essas ilhas ainda mal conhecidas, que um dos seus próximos livros, Corsário das Ilhas (1956), viria então fazer avultar como berço da sua infância e adolescência e paisagem humana de grande diversidade. Este livro de crónicas de viagem (1946 e 1955), que deve ser entendido como itinerário açoriano (corsário no sentido de «fazer o corso de»), é não só leitura indispensável sobre as ilhas atlânticas (Açores, Madeira, Canárias) como documento humano sobre o próprio autor, que se considera «filho pródigo» em visita de saudade à sua ilha. Este livro faz parte de uma «série», o «Jornal de Vitorino Nemésio», antecedido por Ondas Médias (1944), O Segredo de Ouro Preto (1954), depois seguido por Conhecimento de Poesia (1958), Viagens ao Pé da Porta (1967), Caatinga e Terra Caída. Viagens no Nordeste e no Amazonas (1968), Jornal do Observador (1971).

Renovando, por meio de crónicas sui generis, o próprio género da crónica, Nemésio «viaja» no espaço e no tempo, dentro e fora de si próprio, com alusões eruditas, referências inesperadas, vastíssimos conhecimentos de geografia física, geografia humana e história, por vezes em busca de «correspondências» entre o que vê pela primeira vez e o que conhece da sua terra ou da sua infância.

Clássico ficou o seu texto de 1932, intitulado «Açorianidade» (Revista Insula, 7-8, Agosto, incluído depois em Sob os signos de agora, 1932), destinado à comemoração do V centenário do descobrimento dos Açores. Foi daí que o termo Açorianidade partiu, com grande fortuna e expansão, cujo alcance Nemésio na altura não adivinhou. Com efeito, ele estava a falar da sua açorianidade ou «imaginação» do ser açoriano «que o desterro afina e exacerba»: isto é, o afastamento define ou aumenta o sentimento de pertença e ligação espiritual aos Açores. Mais uma versão da «saudade portuguesa», mas com alcance identitário regional e com aura política, sobretudo depois da criação do Governo próprio da Região (1976). Como escreveu em Corsário das Ilhas, «a natural preocupação por essas ilhas [...] por vários modos nele tende a resolver-se por escrito». Esses modos foram a poesia, o romance, o conto, a crónica, a conferência (como a que fez em Coimbra em 1928 sobre «O Açoriano e os Açores» e outra em Nice em 1940, «Le Mythe de M. Queimado»). Nos anos 70, com as vivências políticas anti-gonçalvistas e independentistas dos Açores (1975), Nemésio foi invocado como figura tutelar ou mesmo hipotética de Presidente de uns Açores independentes. «Até que me passe a zanga», como deixa dito em poemas cripto-separatistas de Sapateia Açoriana (1976). A zanga havia de moderar-se ou passar (as condições políticas, de resto, modificaram-se). Nemésio, por sua expressa vontade, repousa no cemitério do Tovim, em Coimbra, cidade onde estudou e tinha uma casa («Casaréus»).

Da sua ficção, de que faz também parte o conjunto de contos O Mistério do Paço do Milhafre (1949), recuperando anteriores narrativas de Paço do Milhafre e acrescentando outras como o inesquecível conto «Quatro Prisões Debaixo de Armas»; poderíamos ainda referir o inacabado romance O Cárcere (1976, 1.º capítulo no Diário de Notícias, 30 de Março de 1978, postumamente), no qual emerge ainda e sempre o mundo da sua ilha e da sua infância e o sentimento de ser ilhéu: «Nunca cheguei a saber se o cárcere era de pedra ou era de gente. Talvez de pedra com gente dentro, talvez de gente feita de pedra».

Nemésio foi também uma figura de grande relevo universitário. A sua tese de doutoramento A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio (2 vols., 1934) é uma referência indispensável para os estudiosos daquele autor e do liberalismo português (em Portugal e no exílio). Tem outros estudos sobre Herculano, sobre a Rainha Santa Isabel (Isabel de Aragão, 1936), sobre o Infante D. Henrique (Vida e Obra do Infante D. Henrique, 1960), sobre Gomes Leal, Gil Vicente, Moniz Barreto, Afonso Duarte, o Romantismo Português nas suas relações com a cultura francesa, Cecília Meireles, problemas das relações luso-brasileiras, questões teóricas de literatura, num larguíssimo leque de interesses, participações e convites de um grande homem das Letras e da vida universitária portuguesa, como se vê pelo seu currículo e vasta bibliografia. Foi tradutor, conferencista, fez palestras na Rádio e na Televisão. Foi um grande conversador e assumiu-se como melómano, ensaiando tocar modas regionais à viola.

A projecção da sua obra e da sua personalidade permite concluir que é um dos escritores mais significativos do século XX, estudado no seu país e no estrangeiro, em numerosas teses de mestrado e doutoramento. Na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, existe um Centro de Estudos que lhe é dedicado (bibliografia, iconografia, investigação), o SIEN (Seminário Internacional de Estudos Nemesianos). A cidade da Praia da Vitória desenvolve um projecto respeitante à «Casa de Vitorino Nemésio». A Imprensa Nacional-Casa da Moeda tem publicado as Obras Completas de Vitorino Nemésio.  

António M. B. Machado Pires, Enciclopédia Açoriana
Direção Regional da Cultura, Centro de Conhecimento dos Açores, 2011.

 

Bibliografia Essencial 

Aquando da receção do Prémio Montaigne, em l974, a Editora Bertrand fez publicar uma coletânea sobre Nemésio, Críticas sobre Vitorino Nemésio, que inclui também a sua magistral «Última lição», publicada pela primeira vez na Miscelanea de Estudos em honra do Prof. Vitorino Nemésio, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1971. As Obras Completas de Vitorino Nemésio estão a ser reeditadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

A.A.V.V. (1998), Vitorino Nemésio — Vinte Anos Depois. Lisboa, Edições Cosmos e Seminário Internacional de Estudos Nemesianos [Actas do 1.º Congresso Internacional de Estudos Nemesianos]. A.A.V.V. (2003), Nemésio, Nemésios — Um Saber Plural. Lisboa, Edições Colibri [Actas do Seminário Nemésio 100 Anos]. Cook, C. S. (2006), O Menino escreve. Infância e Adolescência no universo nemesiano. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Garcia, J. M. (1988), Vitorino Nemésio – à luz do Verbo. Lisboa, Vega. Gouveia, M. M. M. (1987), Vitorino Nemésio – Estudo e Antologia. Lisboa, ICALP, «Col. Identidade» [Contém também uma antologia de estudos críticos]. Mourão-Ferreira, D. (1987), O Essencial sobre Vitorino Nemésio. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, «Col. O Essencial». Pires, A. M. B. M. (1998), Vitorino Nemésio Rouxinol e Mocho. Praia da Vitória, Câmara Municipal da Praia da Vitória. Silva, H. G. (1985), Açorianidade na Prosa de Vitorino Nemésio: realidade, poesia e mito. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda/Secretaria Regional da Educação e Cultura. Valdemar, A. (2002) Vitorino Nemésio. Sem Limite de Idade. Lisboa, CTT-Correios de Portugal.

Revistas que consagraram recentemente alguns artigos significativos: Revista Atlântida, vol. XLVI, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2001 [Centenário de nascimento. Textos de António M. B. Machado Pires, Fátima Freitas Morna, Fernando Cristóvão, Manuel Nemésio, Margarida Maia Gouveia, Urbano Bettencourt]. Revista Insulana, n.º L (n.º 1) MCMXCIV, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1994 [Número Comemorativo dos 50 anos de Mau Tempo no Canal. Artigos de Adelaide Baptista, António Machado Pires, Diogo Pires Aurélio, Helena Mateus Silva, José Martins Garcia, Manuel Urbano Bettencourt, Maria Margarida Maia Gouveia, Paulo Meneses, Rosa Simas].

A Rotação da Memória - exposição comemorativa do centenário de nascimento de Vitorino Nemésio. Este site baseia-se no catálogo impresso da exposição, o qual se estruturou, em grande parte, sobre materiais do espólio nemesiano, conservado no Arquivo da Cultura Portuguesa Contemporânea da BN. Os documentos são descritos peça a peça e, em alguns casos, acompanhados de imagens.
Nos materiais da oficina do escritor e nos demais que integram a «rotação da memória» cultivada por Vitorino Nemésio, encontram-se subsídios importantes para melhor conhecermos a sua formação, as suas viagens, o processo genético que os seus textos conheceram e em geral os avatares da sua proteica atitude literária – uma atitude que jamais se conformou a escolas ou a movimentos rígidos.

 

 


Nemésio: a vida atribulada
 

 

Em Agosto de 1916 publica o seu primeiro livro, Canto Matinal.

O ano seguinte seria de muitas tropelias e desacertos académicos, no liceu de Angra, uma instabilidade que há-de ser recorrente na vida de Nemésio. A opção errada pelas Ciências e, na Universidade, a escolha do Direito antes da Filologia Românica, que só termina em Lisboa, em 1931, não sem antes ter passado pela Universidade de Coimbra, são disso exemplo. A par, claro está, de uma vida atribulada de jornalista e das dificuldades económicas que teve, algumas vezes, de enfrentar: E eu, rebentando a greve da Imprensa, não tinha comida certa: comprava um pão casqueiro na esquina e tragava-o com golos da garrafa de toilette. Os pregões da manhã e as prostitutas vizinhas da noite carregavam-me na angústia (in Notas Biográficas).

Em 1933 é contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo-se doutorado, no ano seguinte, com a dissertação A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio.

Nemésio lecionou ou desempenhou, ainda, missões universitárias em França, Bélgica, Holanda, Espanha, Brasil, etc., para além de ter dirigido a Revista de Portugal (1937-40), que, segundo alguns, se assumiu como uma reacção ao psicologismo da Presença.

De Nemésio, escreve José Martins Garcia (Vitorino Nemésio: a obra e o Homem), biógrafo e estudioso da obra do mais conhecido autor açoriano do século XX:

Há na obra de Vitorino Nemésio um desequilíbrio que dá muito que pensar [...]. Precocemente publicado - livro de poemas aos catorze anos -, é precisamente na poesia que mais dificuldades sentirá quando vier a compreender que um poema não é um mero pretexto para exibição em "Jogos Florais". Cirandando pela actividade jornalística, nunca perderá o hábito, nem mesmo quando catedrático e premiado-condecorado, de enviar artigos, ensaios, crónicas para os mais diversos órgãos de comunicação. Professor, faz palestras na rádio e, mais tarde, na televisão. Romancista [...], contista, só de longe em longe o narrativo se intromete nas crónicas, após a publicação de O Mistério do Paço do Milhafre. [...] Mação, sofre uma tremenda crise religiosa. Contestatário, pede misericórdia a Deus-Pai. Irregular. Inconformista... E contudo poucos escritores portugueses terão obtido em vida tantas distinções literárias, culturais, académicas e outras...

Em 1971 Vitorino Nemésio tem de abandonar a cátedra. O facto [...] provoca-lhe um abalo psicológico notório. Mas Nemésio reage, quer «regressar» a uma actividade que o apaixonou [...]: o jornalismo. [...] Chega o dia 24 de Abril de 1974. Nemésio, reformado, ainda palestrava na televisão. Mas a "liberdade" de Abril sumiu-se em 1975. A Nemésio já não consentem que palestre na televisão. É no meio da barafunda político-ideológica que o escritor assume a direcção de O Dia em 11 de Dezembro de 1975. Não chegou a permanecer nesse posto [...].

Reinicia então uma fase de intensa colaboração em jornais de Lisboa e Porto. Todos os seus amigos íntimos reconhecem um facto: Nemésio vive com dificuldades económicas. Precisa de escrever para continuar o fadário de sempre: ganhar a vida [...].

Há nesta última faceta qualquer coisa de trágico. Dir-se-ia que o biógrafo de Bocage e de Gomes Leal [...] estava condenado a sentir, nos seus derradeiros dias, a afronta dessa Lisboa que nada respeita e a ninguém reconhece... A pátria, a madrasta, ficou-lhe com os ossos, com os ossos dum Homem que sempre buscou a «Ilha perdida»...

E não resisto à transcrição dum testemunho: «Se bem me lembro, no decurso de um dos seus trajectos, aos domingos, através do Bairro Alto e do Chiado, em que lhe fazia companhia, quando entregava, em várias redacções, artigos escritos nas últimas horas, Vitorino Nemésio dizia-me com mal disfarçada amargura: 'Sou uma costureira que anda a distribuir roupa feita ao domicílio'.» (António Valdemar).

Faleceu no hospital da CUF, no dia 20 de Fevereiro de 1978. (José Martins Garcia, Vitorino Nemésio: a obra e o Homem

“Vitorino Nemésio: a vida atribulada” in Ser em Português 12, coord. A. Veríssimo, Porto, Areal Editores, 1999.

 

 

Vitorino Nemésio, última lição recordada no CCB

Fotografia © Arquivo DN

A nove de Dezembro de 1971, o escritor e poeta açoriano Vitorino Nemésio (1901-1978), proferia a sua ultima lição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tinha então 70 anos e chegara ao limite de idade para exercer a docência.

 

 

UM HOMEM A RESOLVER-SE

O mestre Nemésio regressou à sua ilha Terceira 30 anos depois de ter rumado ao Continente. Em 1946, a estadia foi curta, mas prolongada a de 1955. Voltou, dizia, para se «resolver por escrito». Mas poderia alguém ter dúvidas que o homem, já em idade de gente, ainda havia de lhe sobrar passado por construir? Sobrava, sim senhora. Os seus dois regressos foram para volver-se a olhar para dentro, mergulhar no fundo de si mesmo. «O passado vale duas vezes o presente... Uma - porque vale o que foi, exatamente quando era; outra - porque torna a valer esse valor quando puxamos à memória, agora que não é precisamente senão aquilo foi.» Belas palavras estas as da herança por ele lavrada no Corsário das Ilhas,  livro de memórias, de viagens (interiores, disse alguém), ou, digo eu, um jogo bem ao jeito dele, o de deixar-se ir construindo-se, palavra por palavra, à frente dos nossos olhos espantados. «Então, afinal, o homem precisou desse tempo todo para saber bem onde nasceu, com quem se fez, que vida levou, e como tudo isso lhe ficou na alma?» Pois, se calhar... Aquele seu «Se bem me lembro» foi fina ironia, hem?

Carlos Alberto Machado, «Um homem a resolver-se»
in Sata Magazine - Azorean Spirit nº52 (20.10.2012 a 20.12.2012), Ribeira Grande, Grupo SATA

 

 

 


Vitorino Nemésio, o ilhéu do mundo
 

 

Escritor, viajante, professor, pai, comunicador e o que mais se verá, de Nemésio e seu legado se celebra o centenário. Retrato de um homem que só viveu de pão e de verdade.

 

Podia ter como apelido Gomes da Silva, não fosse o padre Rocha, que baptizou a criança na Igreja Matriz da Praia, Ilha Terceira. Bem podia ter exclamado «se bem me lembro, o 19 de Dezembro é dia de São Nemésio». Nessa manhã de 1901, nasceu o filho de Maria da Glória Mendes Pinheiro e Victorino Gomes da Silva. Ao petiz é dado o nome Vitorino por causa do pai, a quem tratavam por «mestre» e era músico amador na Filarmónica local, e por culpa do avô, marceneiro digno e senhor do ofício de que a família ainda guarda em relíquia uma cómoda de cerejeira que, a estas horas, já andará encerada.

Foi educado na Vila da Praia da Vitória, quase sempre em casa das tias Menezes. À criada, Genuína Baganha, dedicou uns versos de delícia: «A Genuína Baganha/ Foi servir pra nossa casa:/ Criou-me como melrinho/ Debaixo da sua asa!// Dava-me sopas de leite/ Cantando-me uma cantiga:/ 'O menino nã nas come?/ Nã nas acha na barriga!'». Não foi menino de coro na Matriz, mas ajudava o padre Rocha na celebração da missa, ao tempo dita em latim. O seu filho Manuel descreve-lhe o quarto de dormir, como um retrato de um homem por inteiro e onde tudo se explica e desvenda: «Era uma espécie de cela de monge onde se recolhia para melhor se abrir ao mundo. A sua cama era simples, de vinhático com duas tarjas altas. À cabeceira tinha um pequeno crucifixo e um terço em contas de madeira muito bonito, mas pobre e com uma cruz em osso desgastada e lustrosa pela usura do tempo e dos dedos das mãos. Na sua mesinha de trabalho tinha uma imagem pobrinha, daquelas que se vendem nas feiras, do saudoso padre Cruz tanto da sua devoção. Rodeado de livros amontoados no chão à volta da cama, para além das estantes, o meu pai vivia ali numa enorme 'desarrumação' arrumada à sua maneira, com ordens expressas de que apenas lhe fizessem a cama de lavado, lhe arejassem o quarto e lhe passassem o pano do pó ao de leve por cima dos livros e dos móveis que mal cabiam no quarto, para além de um enorme guarda-fato». Uma «cela de monge»? Teria Nemésio, professor e conferencista ao longo de quatro décadas, homem viajado e «navio desarvorado», comunicador exímio, pai de quatro filhos, um dos maiores escritores do século findo e o que mais se verá, um recanto de alma em forma de assoalhada? Acreditaria ele que a verdadeira saga é a aventura do espírito? Foi ele o ilhéu do mundo?

Ser um homem é ser «quem viveu muito, viu ou passou muitas histórias e ajudou a fazer algumas», gostava de dizer. Para começar, adorava escrever em comboios. Em viagem usava a Rolls Royce das canetas, uma Conklin de aparo fino, ou então uns lápis bem afiados com a pequena navalha de cabo de osso em chifre de veado. A letra era miúda e redonda, poupada para caber nas pequenas páginas de ainda mais exíguos cadernos, folhas pautadas, toalhas de mesa ou bilhetes de trem. Escrevia poemas nas margens dos textos alheios. Era poeta, acima de tudo, nem que o afirmasse três vezes por via das dúvidas dos outros. Em casa tinha uma Remington, de preto escancarado, com teclas brancas como um piano. Lembra Manuel que o pai «a tocava com mestria num admirável 'orquestrar cantarolado' de escrita a dois espaços em papel A4 que lhe saía do rolo quase sem mácula. Apenas uma ou outra emenda a tinta e lá seguia para a tipografia, por vezes à pressa, mais um artiguinho da última hora num acudir ao seu ganha-pão». Coisas da vida.

Nemésio falava sempre do pai, por isto e aquilo lamentava-se «ai, meu pai, ai, meu pai», até ao fim da vida. Victorino Gomes da Silva, faleceu cinquentão, em Abril de 1923. Dizem testemunhos que era um «homem bizarro» mas de inteligência inquestionável. Passou para o filho a dificuldade de se decidir, tinha habilidade para a música mas dela sabia pouco, dedicava-se ao comércio e tinha a graça de vir amiúde ao Continente para tratar de mudar de ramo. O filho adorava tanta estranheza. À sua maneira: «Eu era um bocado tímido, desafiavam-me à pancada, eu dava pancada, recebia pancada, jogava ao pião e ficava a ver os miúdos, em pêlo, a nadar nas Caneiras. Mas não entrava na água», lembrou uma vez em entrevista televisiva.

O que ditam as cronologias literárias começa nessa altura. Aos 13 anos vê em letra de imprensa o seu primeiro texto, aos 15 lança um livro de poemas chamado «Canto Matinal» e participará em jornais e revistas, as que dirige e funda, aquelas onde colabora regularmente, já influenciado pelos ideais republicanos cuja propaganda na Ilha Terceira e na Horta, onde fará parte do liceu, o entusiasma e influencia. Por graça, o futuro professor catedrático e doutor honoris causa era um mau aluno. Talvez seja brutal dizê-lo assim, mas faltava continuamente às aulas e mal sabia para onde se virar, entre Ciências, Direito e Letras. Só aos 20 anos acaba o liceu, já os pais pensavam em arranjar-lhe emprego e acabar com tanta desdita. Há quem diga que o seu problema era não ser devidamente apreciado.

Em 1919 alista-se no Exército, arma de Infantaria, como voluntário e vem para Lisboa. Digamos, citando-lhe os termos, que era algo volúvel quanto a vocações: «Quis ser padre, soldado e médico, mas não deu em nada. Acabei como professor e escritor. E poeta.» Tem papel activo nas greves de 1921, em particular no jornal «Última Hora», faz comícios e respira de alívio quando tudo aquilo acaba. Volta à Terceira para descansar. «Fui refazer-me daqueles cansaços. É que em Lisboa passei muita fominha», lembrava. O que fazer com este homem? Uns amigos da capital «constituem-se como fiadores», dizia Vitorino, e mandam o rapaz para Coimbra onde fará três dos cinco anos de estudos previstos, mais dado à discussão política e às tertúlias que aos estudos. Trouxe uma lição que apregoará até ao fim: «As posições políticas acirradas e adversárias tinham pouco que ver com as relações de amizade». Em rigor, a sua grande vocação era a literária, a poética, tudo o resto andava em torno. Mesmo a religião, a que vinha do ambiente familiar nos Açores, «católica, não beata, mas assídua». Serão a adolescência, as garotices e os amores que o afastarão, provisoriamente, das coisas de Deus.

Duvidar é a sua maior ferramenta. Inventa o termo «açorianidade», quantas vezes mal percebido por alheios em intempéries independentistas, quer ver a condição de ilhéu aceite na criação estética, pergunta porque não há uma literatura açoriana. Diz das ilhas serem o seu meio original, «partido, fragmentado, feito de mar e de terra, talvez mais de mar que de terra». É metódico como pode, mas só o casamento vai pôr ordem na «casa». Desposa Gabriela Monjardino em 1926 e passa a viver em casa dos pais dela. Ela é tomada como uma mulher quase «militarista» no lar, de tal forma é organizada. Diz-se que Nemésio mal chegaria à cátedra sem ela. No futuro, seria Gabriela a manter a harmonia e o pão na mesa com explicações de francês, língua em que era exímia e cuja «mão» em diversas traduções de Vitorino nunca foi devidamente apreciada. Manuel, o filho, lembra: «A mesa era matriarcal e o meu pai, distraído e às vezes atento, era apenas mais um dos filhos.»

Licenciado em Filologia Românica em 1931, professor auxiliar até se doutorar em 1934 com uma tese sobre a mocidade de Alexandre Herculano (aprovada por maioria e «três bolas pretas», o que Nemésio nunca «engolirá» a preceito), vai ensinar para Montpellier onde permanece até 1937, no Collège des Ecossais.

Começa o ciclo de cartas para os filhos, queridas, ternurentas, brincalhonas, a rasgar por inteiro a ideia de um intelectual puro e duro, professoral e doutoral até à medula. A 6 de Novembro de 1935, escreve à filha Georgina: «Hoje é o dia dos teus anos. Muitos parabéns e muitos beijos. Gostaste dos presentinhos que te demos e que os teus irmãos te levaram? Gi, não te esqueças de nos ir mandando uns postais dos que te deixei. Mas não escrevas muito, para não tirar tempo ao estudo nem te cansares. Bastam três ou quatro palavras acompanhadas de um desenho do Jorge e de rabiscos do Manuel e da Aninhas. Eles têm feito muitas tropelias ao levantar e ao deitar?» Antes, em Abril de 1934, escreve a Gabriela: «Meu amor, aqui tens a minha primeira carta escrita do meu novo desterro. Comprei uma lâmpada portátil de abat-jour verde que me custou 30 francos. Hei-de levá-la para casa, se Deus quiser, e verás que maravilha. Serve para trabalhar à mesa e ler na cama. A bacia é óptima, num cantinho com duas torneiras e lâmpada. A estante, excelente. Há bidé. Estou alto!» Ou: «As tuas cartas vão em crescendo de amor. São maravilhas. Logo te escrevo e beijo mais do que agora.» De Bruxelas, responde à pergunta da mulher sobre os seus «projectos»: «Por ora, são de trabalho os primeiros. Mas ao mesmo tempo vai crescendo em mim um apetite de nova vida, que por ora não posso falar a fundo porque não passa de um apetite. A minha inquietação interior está a tomar um rumo diverso, a canalizar-se toda para a ânsia cristã. Mas insisto que tudo isto por ora é demasiado intelectual para ter consistência. A noite passada, ao meditar nestas coisas, pensei muito em ti, na aliança de fé e acção que podemos realizar com intensidade ainda um dia. Não posso ser mais claro a este respeito, por isso mesmo que o que se passa em mim é uma crise religiosa, muito vaga e difusa. A verdade é que pouco a pouco a concepção católica do mundo e de Deus se me torna outra vez acessível e se me quer oferecer como minha. Tenho tantas saudades dos filhos! Gostava tanto de te ver com o chapéu 'espampanante', assim limpinha e a fazer gosto na mocidade que nos resta! Tanto bêso...»

Vem escrito nos compêndios a importância deste «prelado» em França, de como Nemésio conheceu figuras da intelectualidade francesa, de como abriu horizontes. É o começo de uma série de viagens, de um circuito que de bom grado a crítica e as teses universitárias gostam de encontrar na poesia de Vitorino. Nem de propósito é esse o tema de «Viagem», um notável mas desigual documentário realizado para a RTP por Maria João Rocha e em que parte destas linhas se baseiam, enquanto se espera a sua redifusão como parte da celebração do centenário do nascimento de Nemésio, coadjuvada pela exposição documental na Biblioteca Nacional agendada para o próximo dia 11.

Vem dito nas badanas e margens, nas dedicatórias de muitos dos seus 14 mil volumes de biblioteca pessoal, que Vitorino Nemésio conheceu toda a gente e que a dita tratou de provar que o conhecia a ele. O Brasil foi, possivelmente, a grande paixão de viajeiro. Escreve da Bahia para a filha Georgina: «Escrevo-te estreando uma bestial camisa de dois bolsos. (isto é beige, Gabriela? Estou a escrever à Georgina!). Estamos ambos muito surdinhos, graças a Deus! Mas até dá graça ao diálogo... E a camisa é realmente clarinha, 'cor de areia', disse o snr. Novais, o patrício que ma vendeu tirando 50 cruzeiros dos 450 escudos que pedia. Começam aqui com cedo os estoiros de São João! É cada um! Cidade bulhenta e suja, mas muito pitoresca e de boa gente». Divide-se em conferências, leituras de poesia e aulas. A alma está sempre no mesmo lugar. Diz a partir de Fortaleza: «Eu é que tenho este jeito seco e lacónico de cartear. Mas o meu coração está todo virado para vocês, como um girassol velho.» Ou: «Vou entretendo a debilidade (horas à espera da canja!) escrevendo. Saudades, digo! As tuas palavras de incitamento a eu 'recriar' comovem-me. Acabarei por dar o salto! Às vezes apetece-me. O pior é a rede de ocupações. Ao jantar: sopas.»

Falam de despesas, dos cheques que não chegam, das promessas de trabalho, de mais uns tostões para a casa, de uns «cobres bons». Os familiares recordam-no como um homem muito afectuoso, de lágrima fácil, mais que dado à família. Há, claro, o mistério de Margarida Clark Dulmo, a personagem de «Mau Tempo no Canal», à espreita sobre um juro do Pasteleiro a vinda do «seu» João Garcia. Chamava-se Maria e com ela trocou Nemésio correspondência durante meio século. Conheceram-se quando o escritor tinha 15 anos. Monárquica acérrima, guardou até ao fim o segredo de uma enfatuação de que ninguém fala, uma paixoneta que talvez fosse mais que isso, mas que Vitorino não fazia transparecer ou indiciar nas cartas à família e a Gabriela. Esqueceu as mágoas a escrever «Mau Tempo no Canal». Há quem diga que morreu sem esquecer a menina loura da Terceira a quem terá pedido amores ainda em 1936, já casado há dez anos. Não seria o pai a dar-lhe o maior dos conselhos: «O meu pai é a grande saudade da minha meninice. Todas as coisas que eu vi e senti vão ter a ele como um rio. Foi ele que me deu esta alegria que tenho enterrada na minha abstracção e nos desvios de uma vida de que sou o único culpado, mas também foi ele, ou antes o seu fadário, que encheram a minha adolescência de melancolia e de temor».

A sua saúde de ferro é atingida por doença mortal, uma vez mais sofrida, outras ténue e imperceptível. Já passara os ardores dos anos 50, quando a intelectualidade perguntava qual o papel do catolicismo nos tempos correntes. Nemésio reconverte-se à religião, deixa-o escrito preto no branco em «O Pão e a Culpa» ou «O Verbo e a Morte». Ensina «O Malhadinhas», de Aquilino Ribeiro, como se fosse o livro do século. Perde-se de amores por Dostoievsky e Lins do Rego. Escreve e ensina, com a alternância possível.

Vem do ensino universitário a sua mais amada característica. Um homem é o que é na conversa. De bom grado prefere que um aluno lhe proporcione, olhos nos olhos e ouvidos à ilharga uma conversa interessante do que passe uma cadeira com a quantidade de matéria que «empinou». Passa o ensinamento aos filhos, mas os alunos passam maus bocados. Adoram-no pela «verve», a cultura imensa, a capacidade de falar de tudo e de nada, sempre voltando ao pensamento central que ali o leva. O problema maior são os exames: uma aula de Nemésio nunca é meio caminho andado para saber o que vai sair no «ponto». Talvez fosse melhor sair com ele e cantar ladainhas enquanto o professor se acompanhava à guitarra, ou estar a seu lado deliciado com um prato de abrótea frita ou uma sopa de carne, duas iguarias que inspiravam a Nemésio o inevitável comentário: «É melhor que no Ritz!»

Em 1969 faz-se vedeta de televisão com «Se Bem Me Lembro...», programa de charlas em solilóquio onde Vitorino era deixado com as suas memórias, a sua concepção do mundo, num jeito nervoso, eufórico, de prosa pausada, deliciosa, mal se segurando na cadeira por conta da alegria imensa de conversar. Dizia-se à boca calada que se jantava desligando o som às «Conversas em Família» de Marcelo Caetano e se parava o garfo a meio caminho enquanto Nemésio discorria. Era uma figura popular, demasiado popular. «Ali sou um homem de careta, no ecrã, mas não me conhecem como poeta, só me conhecem naquelas coisas», lamentava-se. Até que o PREC o demita, serão seis anos de programa onde, aos poucos, vai refazendo sem querer a sua própria autobiografia. É ali que confessa o estado actual da sua religiosidade: «Sou contraditoriamente religioso e ateu. Religioso nas horas vagas.»

A certa altura vislumbra uma saída para a crise financeira da família quando o convidam para director do jornal «O Século». Está tudo no lugar até dar uma entrevista à «Flama». Ao perguntarem-lhe que perfil editorial quer dar ao diário, ele responde «pluralismo de opinião, tolerância, diálogo, representatividade dos grupos e direito de resposta». O convite é imediatamente retirado. Não era, já se vê, homem com quem o Estado Novo pudesse contar, nem havia Primavera marcelista que o levasse aos píncaros. Exulta com o 25 de Abril mas nem mesmo a sua rebeldia de juventude aguenta tantos excessos. Dará, com infinda graça, o retrato dos vira-casacas: «Sempre que raia uma nova aurora, é sempre muito mau ver um homem que faz a 'toilette' de última hora.»

Até à morte, a 20 de Fevereiro de 1978, vive dos possíveis prazeres, a começar pela guitarra que só os amigos tinham a generosidade de fingir admirar com talento. Tinha bom ouvido, mas tocava mal e não há volta a dar-lhe. A guitarra contentava-o, quase tanto como cantarolar com voz rouca e trejeitos de sorriso matreiro. Nos alvores revolucionários e mesmo antes, em plena Guerra Colonial, cita na TV, sempre que pode, a velha máxima de António Sérgio: «Guerra às ideias e paz aos homens.» É tudo o que lhe interessa. Ainda se torna director do jornal «O Dia», mas demite-se poucos meses depois.

Passou os últimos dias no Hospital da CUF, longe das noites de sono justo e sem pesadelos, entre os médicos e os filhos revezados em vigília. Rabiscava uns derradeiros poemas, a agraciar os amigos, a pedir desculpa por pequenas ou maiores ofensas, do pão, da culpa, do verbo e da morte. Em sussurros, pediu ao filho Manuel para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra, e que os sinos da igreja tocassem o Aleluia em vez de dobrar a finados. O que se cumpriu.

A poucos escritores portugueses pode uma vida comparar-se a uma viagem, fosse ela pelos cantos claros do mundo ou as esquinas escuras da inquietação. Professor, romancista, comunicador, poeta e tudo, o legado de Vitorino Nemésio, o do homem e da palavra, não tem paralelo. Como resumir a vida de um homem destes numa única ideia. O melhor é usar o que ele disse ao receber o Prémio Montaigne, em Março de 1974. Terminou a sua alocução e agradecimento desta maneira: «A carta de cidadania é precisa para voto e passaporte, mas também se passa sem essas coisas. Sem pão e verdade é que não.» E mais não disse por não haver quem o dissesse melhor.

José Mendes com Luísa Amaral, Expresso-Revista, 01.12.2001
 

 

 


Do paroquial ao universal
Unidade e diversidade em Nemésio
 

 

DO PAROQUIAL AO UNIVERSAL

Poeta, acima de tudo. E três vezes dito, se assim o obrigassem. A obra de Nemésio é vasta e multiforme feita da consciência do exílio. Com a insularidade por metáfora.

É raro um autor publicar o seu primeiro livro aos 15 anos. Aconteceu com Vitorino Nemésio e, se é fora de dúvida que, com o seu Canto Matinal (1916), o autor estava ainda preso a modelos tardo-românticos um tanto ou quanto requentados e longe da excepcional qualidade literária que veio a atingir mais tarde, é interessante registar que se nos apresenta já então com um considerável domínio de uma série de aspectos técnicos e formais da escrita poética. A «Canto Matinal» e a «Nave Etérea» (1923), chamou ele «dois livritos não propriamente precoces, senão precipitados (…) Dessas coisas que se estampam no ímpeto da adolescência, sem critério». Mas, de algum modo, pode dizer-se que Nemésio, assim, começou a dominar a oficina muito antes de estar em condições de lhe agregar os outros ingredientes que fizeram dele um dos maiores poetas do século XX. Dois desses ingredientes, a que, à falta de melhor termo, chamarei «descontracção» e «naturalidade», vieram a acentuar-se progressivamente, insinuando-se no manuseio da utensilagem de que continuou a servir-se e que veio a abranger um leque de ferramentas muito vasto, da erudição mais estonteante e do profundo conhecimento do fenómeno da criação literária à frescura e à surpresa da sensibilidade de raiz mais chã e popular.

Alguns desses aspectos surgem já, plenamente afirmados, numa língua que não era a de Nemésio, em «La Voyelle Promise» (1935), seu primeiro livro importante, para depois alastrarem pela obra portuguesa. Ali são prenunciados, conquanto numa língua que não era a sua, vários dos temas e vários dos processos prosódicos e rítmicos que depois se tornarão característicos nele, em que a rigidez «metronómica» de certas regularidades surge espontaneamente transgredida ou é temperada pelas inflexões da fala, como mais tarde o virá a ser, na sua íntima musculatura, por notas da própria pronúncia açoriana.

Nessa altura, Supervielle e Valéry contam-se entre os seus mestres. Fala do seu biénio de 1934 a 1936 em Montpellier nestes termos: «Lá vivi dois anos de fervor e renovo espiritual: o domínio francês na revelação da poesia noemática de Valéry e soteriologia de Claudel, além da 'caligramática' de Apollinaire.» E se Apollinaire é uma chave para certos efeitos mais desconcertantes da escrita poética nemesiana, uma pequena obra-prima de rigor, de inteligência e de humor, como «Mademoiselle Hypothèse» só se compreende a partir de uma destra apropriação de alguns processos de Valéry. É também em «La Voyelle Promise» que surge pela primeira vez, creio eu, uma auto-alusão ao seu nome («- Némésis, la payenne // Aime la chair, le sang / Et d'autres friandises / Qu'on ne sert qu'aux étangs / Écartés des églises», lê-se no poema «L'oeuf à la coque»), como muito mais tarde, no final de «Mau Tempo no Canal», o mesmo mito será implicado pela referência ao anel de Polícrates.

De uma época ainda anterior aos seus primeiros contactos vividos com a França datarão as suas primeiras leituras de Rainer Marie Rilke (m. 1926), de quem já havia várias traduções disponíveis em Francês. Mas a experiência rilkeana depois foi certamente aprofundada através das traduções de Paulo Quintela que começaram por ser publicadas, em 1938, na «Revista de Portugal» (dirigida por Nemésio), juntamente com uma «Carta a Vitorino Nemésio para servir de credencial a algumas traduções». Para além das influências possíveis num poeta que defendia expressamente a contaminação da poesia nacional pela grande poesia das outras literaturas como condição de qualidade, a poesia de Rilke e a de Hölderlin (esta também, provavelmente, conhecida mais a fundo e mais tarde graças a Paulo Quintela), juntamente com a leitura de Heidegger e uma especial vivência do barroco literário ibérico, explicam muito da feição simbolista, existencial e religiosa da poesia do nosso autor.

Em boa medida a modernidade do Nemésio dos anos 30 e das décadas seguintes deriva dessa matriz complexa, e da sua propensão para conciliar processos e prosódias de matriz mais culta e de filiação literária mais identificável com um pessoalíssimo à-vontade face aos temas que tratava, um reviver sem complexos da tradição popular e uma radicação directa no húmus de uma memória ligada à sua terra natal (os Açores, a Ilha Terceira), construindo-se e erguendo-se «peça a peça, / De saudade, vagar e reflexão».

Em todo o caso, o seu simbolismo, de laivos e alusões por vezes fortemente rilkeanos, difere do de Rilke em aspectos essenciais. O poeta checo investe a sua escrita de uma carga expansiva em que os referentes estão mais ligados ao «ser» da própria palavra numa sua relação aristocrática com o mundo do que aos seres e coisas concretos do mundo. A poesia de Rilke raramente transcende o universo de um «poético» nobre, em que a formulação escamoteia alguma coisa para que alguma outra coisa se lhe substitua e para que o poema fique a vibrar como uma espécie de tensão elegantemente estabelecida entre esses dois pólos. O poeta açoriano procura que a palavra irradie a propósito dos referentes do seu quotidiano, vivido actualmente ou lembrado numa peculiar iluminação recapitulativa que vai das epifanias às impurezas.

A carência e o seu contrário em Rilke são algo de indefinidamente pre-sentido, de ilimitado (o «das Offene»), prestes a, mas sempre aquém de perfazer-se numa plenitude entrevista. Em Nemésio, a carência é a de algo por que já se passou, de que já se fez a experiência e de que, por isso, agora se sente a falta. Rilke fala nas rosas, ou nos frutos, ou nos animais, logo como símbolos em si que, pelo próprio facto de serem incorporados no poema, abrem para uma dimensão ontológica, sendo a sua presença activa no texto assegurada pela sua inclusão num jogo inesperado de interrelações muito flexivelmente estabelecidas. Nemésio pode falar das flores, ou da espinha de um peixe que apodrece no cais, ou até do ADN, mas precisa sempre de um concreto verificado, aferido e referenciado pela sua experiência pessoal, para a transfiguração poética dos materiais que utiliza.

Nesse trânsito, a que a espessura do Tempo vem agregar-se numa angústia agudamente vivida que passa pela intuição do Ser, do Nada e da Morte, consiste o seu «Gesang ist Dasein» e aquilo a que poderíamos chamar a sua dimensão existencial. As metáforas é que, depois, ganham qualquer coisa de rilkeano, embora sejam mais filosoficamente desenvolvidas, como acontece com as suas referências aos anjos, ou mais visceralmente germinativas, como aquele «ovo de tanta coisa, o coração» de que diz «mal começar» num poema escrito perto dos quarenta anos, a combinar-se com um exercício sobre o despertar dos sentimentos e a reflexão sobre eles, um sentido da quente densidade do mistério e da reiterada interrogação sem resposta definitiva como inseparáveis da vida consciente, uma capacidade de entrega pela via da palavra a essa decifração frustrada que vê no amor de Deus e na experiência de tipo místico a única resposta possível. Para Nemésio, a poesia e a filosofia tocam-se: «A reminiscência platónica autoriza por igual uma especulação sobre o juízo e outra pela imagem e alusão. O universo inteligível é tão conceptual como o alegórico (…) Assim, de um mito comum nascem as duas estirpes de pesquisadores do real: poetas e metafísicos.»

Há em Nemésio uma permanente capacidade de se deixar surpreender pelo real e, ao mesmo tempo, pela capacidade metafórica que a palavra tem de engendrar a literatura, ou de nela se tornar, a partir desse mesmo real. A sua poética não é uma poética de transfiguração da palavra, mas de transfiguração do próprio mundo que a palavra consegue designar e fixar («Com medo de o perder, nomeio o mundo»).

Por outro lado, há em Nemésio, tanto no poeta como no prosador, uma permanente dimensão autobiográfica, quer autêntica, quer simulada numa escala relativa. Nemésio poetisa a partir das circunstâncias da sua vida, das referências aos seus familiares, dos seus gostos e desgostos, prazeres e desprazeres, de tudo o que lhe surge como ensejo de meditação intensa, incluindo a sua aproximação das incandescências do transcendente, inseparável do exercício do Verbo.

O seu mundo interior, cujo peso o aproxima dos presencistas, vai muito mais além do destes, nos planos da sinceridade e da intensidade. A poesia de Régio vive do remorso de Deus e de uma consciência expiatória e um tanto ou quanto artificiosa do mal; a poesia de Torga vive da interpelação de um Deus em que ele não acredita mas que increpa como pretexto para afirmação do seu orgulho desafiante e do seu humanismo grandiloquente; a de Alberto de Serpa vive de um quotidiano de província registado sem grandes ambições visionárias; a de Saúl Dias concentra-se em momentos de simples intensidade lírica, intimista e contemplativa. Nemésio organiza «naturalmente» o seu mundo interior, capaz de grandes angústias, mas sem perda da «joie de vivre» e de um sentido final da redenção e da Graça divina; é crente para se enriquecer intimamente a partir da sua crença; fala de Deus, dos anjos e da morte; olha as coisas grandes e pequenas, até as de escala microscópica, porque elas dão um sentido ao mundo e à vida; não se desinteressa da filosofia «tout court» nem da filosofia da linguagem; investe na ciência e no saber interdisciplinar; é um dos nossos grandes poetas do amor, da ternura e da sensualidade; brinca e joga com as palavras porque a poesia é uma arte da manipulação delas de que não se excluem o divertimento nem a ingenuidade; e explora toda uma outra série de campos em que a literatura é apenas um dos pólos. «Toda a vida estudei de tudo e o mais que podia para o que desse e viesse. Não me preparava dia a dia para amanhã e depois ou racionando, como a formiga, do Verão propício ao Inverno rigoroso. Mas talvez não fosse apenas leviano, como a cigarra, pois nunca tive de dançar no Inverno e cantei sempre.»

É célebre a síntese de David Mourão-Ferreira no conspecto da variedade prodigiosa da obra nemesiana: «Alguém que verdadeiramente nascera com um talento multiforme, o qual teria dado, à vontade, para mais dez autores e todos eles de primeira água: dois ou três poetas, a apontarem novas direcções e novos modos de ser moderno na poesia portuguesa; outros tantos ficcionistas, a redimirem de muito erro a nossa ficção (…); dois críticos, pelo menos, e ambos bem necessários - um da melhor cepa impressionista, o outro apetrechado com toda a aparelhagem da mais completa erudição (…); e ainda um extraordinário filósofo da cultura; e ainda um biógrafo e um historiador; e ainda um multifacetado cronista, que por completo renovou as leis do género.» Mas, relida uma obra com toda essa desvairada multiplicidade, não deixa de nos ficar uma impressão da sua unidade profunda, articulada em torno de uma preocupação de humanismo fraternamente procurado e vivido ao longo de todo o arco que vai do paroquial ao universal, ou em que o paroquial é provavelmente a própria condição do universal.

Já uma vez escrevi que a obra de Pessoa gira em torno do vazio e a de Nemésio se alimenta do «cheio». Por isso os exercícios da razão pessoana são áridos e pessimistas, reduzidos a concluir pelo sem sentido do mundo e da presença humana nele, enquanto o trabalho da razão nemesiana se aplica a uma outra dialéctica, mais eufórica e reconciliada com a vida, pronta a acompanhar-lhe os sobressaltos e superar-lhe as contradições.

Como mais tarde veio a acontecer com Sophia, Nemésio, sai de uma encruzilhada em que Saudosismo, Simbolismo e um certo vitalismo se combinam. Só que, em Nemésio, menos dado a geometrizações abstractizantes do que a autora de «Coral», acresce uma especial atenção à cultura popular, aos nomes e às funções da coisas e aos ofícios e artesanalidades, e tudo isso tem uma música própria e é dotado de uma particular e irradiante radioactividade. Tudo isso, que faz normalmente parte do mundo, faz também parte do seu mundo e tem dignidade suficiente para que o poeta o não desdenhe.

A sua consciência do exílio, construída a partir da metáfora da insularidade em contraponto com o tema do mar, por via dos «temas coerentes e reiterados do sentido da existência pela representação do passado: o mundo da infância no microcosmo da Ilha; o isolamento no seio de uma comunidade patriarcal; a revelação de Deus e do próximo na vizinhança e na família, do destino no amor e na promessa da morte», leva-o a colmatar de vários modos essa distância do ponto de partida, quer pessoal, quer lusitano, quer antropológico.

Esta chave explica não apenas a sua obra poética e a sua obra romanesca, com especial destaque para esse monumento inigualável da ficção portuguesa que é «Mau Tempo no Canal», mas ainda muitas das outras páginas que escreveu, a propósito de tudo o que lhe acenava como fazendo parte de um mundo que ele via e vivia como imemorialmente seu.

Vasco Graça Moura, Expresso-Revista, 01.12.2001

 

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Caricatura de Vitorino Nemésio, por Santiago (António Santos)

 

 

UNIDADE E DIVERSIDADE EM NEMÉSIO

Rouxinol e mocho, ou seja, poeta e erudito, assim se confessou Vitorino Nemésio. Não há nenhum escritor português contemporâneo (incluindo Pessoa) com uma tal diversidade. Diversidade de géneros e de tonalidades: a biografia histórica meio ficcionada, o compacto ensaio académico sobre Herculano, as crónicas de imprensa, as viagens distantes e domésticas, as evocações literatas, os contos e novelas, o magnífico Mau Tempo no Canal. E a poesia: metafísica, polémica, surrealista, lúdica, erótica, regionalista, científica. Nemésio é um mundo. A sua erudição colossal e divagante contribuiu para a imagem pública de professor heterodoxo e conversador notável. E a irrequietude poética fez uma obra variada, por vezes difícil, a poesia de alguém que, como ele dizia, se desfaz em linguagem, que vai atrás das palavras, que faz com que as palavras o sigam, seja a palavra o Verbo cristão, a severa filologia, o neologismo científico, os sotaques locais, as surpresas fonéticas.

Desta unidade e diversidade nos tem dado conta António Machado Pires, que foi assistente de Nemésio na Faculdade de Letras de Lisboa. "Rouxinol e Mocho" recupera pequenos livros e textos dispersos de temática nemesiana, o que explica algumas repetições. É, no geral, uma boa introdução aos temas essenciais do polígrafo ilhéu.

Os textos analisam com algum detalhe a dimensão multifacetada de Nemésio. É um trânsito constante entre "rouxinol" e "mocho", uma escrita feita de história, alusões cultas, jogos verbais, subtil biografismo. Machado Pires interroga em particular o que significa a "açorianidade" de Nemésio. "Mau Tempo no Canal" e "Corsário das Ilhas" são exemplos de como em Nemésio o regionalismo é universalista.

No romance de 1944, um dos quatro ou cinco mais importantes do nosso tempo português, convergem as impressões e os saberes de Nemésio acerca das ilhas. O clima, as rochas, o verde, as baleias, o oceano, o isolamento, a estratificação social, a variedade fonética, a força do destino, o "azorean torpor". A ilha como génesis, cosmogonia, nostalgia, arquétipo. Terceirense expatriado, Nemésio encontrou nesse "romance das ilhas" uma âncora em que fundeou a sua extraordinária vastidão de interesses e capacidades. Uno e diverso, Nemésio faz da ilha um motivo central da sua obra: "A sua universalidade é também a do homem que trabalha os símbolos: o mar e a ilha, o eterno e o efémero; o paço e o milhafre, a casa e as asas da imaginação; o rouxinol e o mocho, o poeta e o sábio; as algas, os corais e a concha, os epifenómenos dessa insularidade ao mesmo tempo feérica e fechada na memória de si própria (...)" (pág. 56). Corsário das Ilhas (1956), peregrinação sentimental que deve bastante a As Ilhas Desconhecidas (1926) de Raul Brandão, mostra de novo como o tema ilhéu congrega as preocupações e inclinações de Nemésio, acrescidas de uma certa culpabilidade de filho pródigo, alguém que viveu fora a vida quase toda. A "ilha", em Vitorino Nemésio, é mais que um sítio: é imagem e biografia, motivo e angústia, mocho e rouxinol.

Pedro Mexia, http://ipsilon.publico.pt/livros/critica.aspx?id=255811

 

 

 

 


Perfil poético de Vitorino Nemésio

 

 

DIVERSIDADE TEMÁTICA E FORMAL DA POESIA DE VITORINO NEMÉSIO

POEMAS

Mundo concreto de "raiz rural ou marítima" (o mar, a ilha); interioridade (ambiente íntimo e doméstico); tempo como vivência (a infância); contraste sublime/abjeto; tensão eu/tu (o Sagrado, o Divino).

• telurismo

• insularidade e isolamento

• relação direta do homem com a sua circunstância física e psicológica

• condicionalismos da interioridade

• angústia existencial

• ansiedade

• visão teocêntrica do homem e do mundo

• humanismo nacionalista

Quando eu morrer, a terra aberta

Outro Testamento (Quando eu morrer deitem -me nu à cova)

Retrato

Requiescat

Noz de Fogo

Casa do Ser

A Concha

Orfeu

Écloga

Quatro coisas são precisas

O futuro perfeito

Indício velado

CARÁTER DESCRITIVO DA POESIA; visualidade, imagens de natureza espacial; intuição súbita, livre associação de imagens; exuberância verbal.

• identidade açoriana

• presença da ilha e o regresso à infância

• sempre o bater do mar para sentir a força da terra

A nortada encheu de ilhas o horizonte

Arte poética

O recorte de um cão, na areia, ao luar

Semântica eletrónica

 

 

 


Nemésio: uma espécie de humildade
 

 

 

RETRATO DE VITORINO NEMÉSIO

Era um homem das ilhas, dos Açores,
que tocava violão. Tocava bem.
Talvez faltassem todos os rigores
do virtuosismo artístico. Porém

nesse improviso havia tal encanto,
tal à-vontade, que era, na verdade,
como se a gente lhe escutasse um pranto,
um grito, uma alegria, uma saudade...

E havia tanto que aprender com ele!
Era um amigo sem comparação...
Contava tudo. Até de uma cabrinha

falou num verso... Que poeta aquele!
De repente me vem do coração
a última vez de sua mão na minha.

    

Odylo Costa Filho in Colóquio Letras, n.º 51, setembro de 1979

 

 

 

Em Nemésio coexistem, defrontam-se, o eterno saudoso das ilhas a Oeste ‑ infância, família, antepassados, povo que trabalha, montanhas, fumas, o mar, o risco, a distância – e o vagabundo de olhos curiosos bem abertos, insaciáveis. ("Minha mãezinha ao longe, e eu nato andante"), cosmopolita apesar de castiço, poeta francês em França ou na Bélgica, poeta brasileiro no Brasil, com receptividade e poder mimético admiráveis, escritor europeu (Prémio Motaigne por acto de justiça que tardava) que é preciso ler na intertextualidade mais ampla, num quadro de referências onde, por exemplo, se encontram um Pascal e um Unamuno, um Rilke e um Ortega, um Valéry e um Heidegger, não faltando entre os portugueses Camões e Pessoa, claro, e Nobre, Pessanha, Raul Brandão, Pascoaes.

Mais ainda: graças a uma prodigiosa retentiva, era "guarda-mor" (em simples conversa o revelava) de vários universos, captados por experiência directa ou por leitura: evocava homens, coisas, eventos, com uma abundância que não prejudicava a nitidez mas aqui simultaneamente erudito e conhecedor do concreto, quer lhe ocorresse um episódio da emigração romântica ou um texto de Santo Agostinho, quer lhe viesse à lembrança uma planta ou um utensílio da vida rural, que para tudo dispunha do termo adequado, exibindo um domínio da língua que era prova de cultura extensíssima. E todavia o saber não lhe "pesava", o enamoramento do passado não o impedia de viver o presente, de auscultar a angústia da nossa época, de actualizar pela cultura a sua imagem do mundo; foi, em poesia, inventivo, livre, inovador, como poucos, tão moderno que nunca deixou de o ser ‑ e como que timbrou em demonst-lo pela juvenil resposta que deu aos setenta anos: o seu Limite de Idade, poesia "invadida" pela microbiologia e pela física atómica, mas ainda reduto de superior lirismo e humor.

Em Vitorino Nemésio descobrimos, como outras tantas marcas de riqueza, o contraponto da distracção egocêntrica e da comunicabilidade, mesmo da atenção ao outro; a combinação do impulso emocional, da entrega fácil, desprevenida, e duma consciência lúcida de espectador de si que leva à autodefesa irónica. Sensual e místico, espontâneo e fingidor, o poeta sugere-nos a aceitação das contradições próprias da natureza humana e, especialmente, dos versáteis em que a vida se excedeu. Define-se como um "portador": carrega os desejos, os sonhos, os danos que o tempo faz, as culpas; há nele uma indulgência para consigo que se estende em tolerância compassiva para com os outros, e postula um Deus de perdão, como o de Bocage. Nemésio, com efeito, não ostenta o orgulho duma forçada coerência. Em vez disso, uma conformidade, uma aceitação humilde que se completa com o bálsamo da confissão aos quatro ventos: "Tenho a culpa de tudo." "Assumo a noite e o mal que nela está." Não promete combate nem renúncia; pede compreensão, diz o seu cansaço e a nostalgia do outro lado da vida: "Direi, pela noite, não ódio que tivesse/Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha/ Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá/Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha" (in "Requiescat"). 

Jacinto do Prado Coelho, “Nemésio: uma espécie de humildade” in Colóquio-Letras, nº 42, pp. 5-6

 

 

  


Diversidade temática e formal da poesia de Vitorino Nemésio
 

 

 

Diversidade poética: do saudosismo e da «Presença», ao surrealismo e outras experiências estéticas. 

Importa desde já salientar a importância da obra poética de Vitorino Nemésio relativamente à compreensão do modo como a nossa poesia contemporânea evoluiu desde os tempos da «Presença». Afastando-se de tendências epigonais que, inicialmente, são ainda visíveis (desde as tardo-românticas às de um certo saudosismo) a obra poética de Vitorino Nemésio assimila, desde os anos 30, uma articulação imagética que se aproxima do surrealismo para, na década seguinte, se orientar mais para uma essencialidade verbal que começa a explorar a dimensão simbólica da linguagem e, depois, desenvolve o que na poesia poderia ser um feixe de preocupações de ordem religiosa, filosófica e científica, aliadas a uma condensação de índole verbal e simbólica que posteriormente se vai aprofundar. 

Fernando Guimarães, in Dicionário de Literatura Portuguesa, org. de Álvaro Manuel Machado

 

 

 

Dois ciclos temáticos se interseccionam na poesia de Vitorino Nemésio:
 

·      evocação/saudade do passado/tempo da ilha e da infância;
 

·      reflexão sobre o sentido da existência (revelação de Deus e do próximo), relacionada com uma perspectiva religiosa sem que assumem importância os temas da morte, da culpa e do pecado. 

 

A percepção pluridimensional da poesia de Nemésio resulta da intersecção de dois grandes ciclos temáticos, que hoje sentimos percorrer de lés a lés a sua obra inteira, mas cujo contraste vivo só viria a definir-se com nitidez a partir de O Pão e a Culpa (1955). Encarando-os segundo os seus valores faciais, digamos que esses dois ciclos são o da saudade da infância açoriana e o da meditação existencial de sentido heideggeriano-religioso. 

Óscar Lopes, «Vitorino Nemésio», in Os Sinais e os Sentidos

  

 

 

O CICLO DA INFÂNCIA

 

Os volumes de versos até agora publicados de Nemésio agrupam-se claramente em dois ciclos que se intersectam mormente em Nem Toda a Noite a Vida, impresso em Dezembro de 1952, o mais heterogéneo dos seus livros. No primeiro desses ciclos, a razão da existência (ou o pólo dos valores) é demandada através das saudades de uma infância que se desenha lá longe, nas Ilhas, dentro de um aro de ondas salgadas, gaivotas, espuma, e que assume vários rostos mas sobretudo o do Pai e o de um primeiro amor auto-inibido. 

Óscar Lopes, História Ilustrada das Grandes Literaturas, pp. 847-848

 

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Nemésio, fazendo emergir, na sua imagística, o «Mito da Ilha Perdida», fá-lo não só como a projecção de um conflito, mas como uma proposta de solução: ancorado na sua crença religiosa, o Poeta vislumbra o reduto seguro que o aguarda no fim de seus dias sobre a terra, o qual representa a reprodução-síntese do útero materno que o gerou e do seu mar da infância, fechando-se, assim, o ciclo de sua vida. 

Lúcia Cechin, A Imagem Poética em Vitorino Nemésio, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1983

 

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E toda esta produção (a produção literária de Nemésio), embora multiforme, não deixa todavia de ser unívoca; por detrás desta obra (que constitui ela própria uma espécie de arquipélago) manifesta-se o incessante apelo do arquipélago natal: através de uma arte de sugestão e de evocação, por meio dos cercos estilísticos mais sábios ou das intuições mais fulgurantes e mais simples, com toda uma simbólica de grande poesia e, ao mesmo tempo, a frescura da genuína inspiração popular – sempre Vitorino Nemésio se tem esforçado por atingir-se inteiro, por se reconduzir à infância e à ilha natal, que representam, uma e outra, e uma na outra, as imagens de uma perdida unidade. As suas obras da última fase (sobretudo O Pão e a Culpa) sugerem ainda que a toda esta procura, no geral imanente, se sobrepôs o transcendente encontro da Graça. 

David Mourão Ferreira, in Dicionário de Literatura, dir. de Jacinto do Prado Coelho.

 

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Para um ser cuja consciência de si se circunscreve, as mais das vezes, à feição animal do seu “eu”, é curioso observar como a rememorização de um passado longínquo, cuja idade emblemática é a da infância, o pode fazer recuar a um tempo original e restituir-lhe, livre de toda a precariedade física e moral, a dimensão da sua verdadeira identidade.

De entre O Bicho Harmonioso, Eu, Comovido a Oeste e Nem Toda a Noite a Vida, são sobretudo os dois primeiros que se mostram como o percurso de uma memória a reavivar um passado mítico para atingir o fundo de si mesma. O acesso às origens será o acesso do ser à sua realidade primordial, “água”, “voo “ ou “som”, que só a Ilha e o mar, pela força congénita à sua estrutura, podem legitimamente simbolizar. 

Maria Madalena Gonçalves, Poesias de Vitorino Nemésio, pp. 27-28 (Apresentação crítica, selecção e sugestões)

 

 

 

O CICLO DA VIA METAFÍSICA E RELIGIOSA

 

O triunfo poético de Nemésio não é de modo nenhum uma consagração. Não se liga a um prémio ou a uma cerimónia mundana. É, sim, o resultado duma luta interior, duma busca orientada por uma certeza íntima, por vezes duma quase autoflagelação onde actuam memórias insulares, sonhos já destroçados, o Amor como anseio jamais realizado, e Deus na infinita ambiguidade de seus desígnios ‑ até na surdez do universo. 

José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978

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Para Nemésio, o mundo é tentação: de beleza, de vitalidade, de amor. Mas o mundo não é "verdadeiro" na medida em que é "ilha perdida". Na sua materialidade, ele é ilusão, miragem, apelo traiçoeiro. Mal se caminha ao encontro da visão apetecida, o "ser" da imagem esfarela-se e abre ao entendedor a sua ausência: ou é imagem do passado, ou é febre dos sentidos – ou ambas as ilusões fundidas numa amálgama cuja realidade interior é dor, angústia, remorso, culpa. É na esfera dessa culpa que se move grande parte da poesia nemesiana, sendo o poeta, por assim dizer, um lugar de digladiação entre a realidade perdida e o verbo que a suscita numa plenitude imaterial. […]

Duas grandes linhas comandam [a sua poesia]: por um lado, a renúncia ao mundo: por outro, a sensorialidade como ritual. Da renúncia resultará a poesia intimista, o monólogo que Deus ouvirá ou não. Da sensorial idade indomada resultará o impulso pagão que levará o poeta a encarar a festa como ritual. 

José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978

 

 

A renúncia inspira a Nemésio uma obra de notório carácter ascético: O Pão e a Culpa. E dizemos ascético não só pelas propostas feitas pelo autor, mas também pelas características da sua linguagem poética.

Tendendo para o verso curto ‑ mas não desdenhando, em matéria de medida mais longa, o decassílabo, nem mesmo alongamentos alheios à métrica silábica, que acabavam por se subordinar a um ritmo determinado pela distribuição das sílabas tónicas ‑, Nemésio utiliza ainda surpreendentes "enjambements" a fim de pôr em relevo rimas internas que, de outra forma, ficariam um tanto apagadas no deslizar do verso. Não se trata, evidentemente, duma inovação. Acontece simplesmente que todos esses processos poéticos revelam, em O Pão e a Culpa, um tal grau de exposição, de violentação íntima, de premeditada desarticulação, que o leitor pensa numa espécie de descarnamento.

O que se mostra em O Pão e a Culpa é um homem em crise, perdida a fé nas coisas terrenas. Esse homem quer dialogar com Deus, exibindo as chagas. Chagas resultantes do pecado, da fraqueza, do "Iodo" humano. E, se o silêncio é "peso de Deus" em Nem toda a noite a vida, a exibição da matéria humana aos olhos do Criador não conseguirá destruir o seguinte equívoco: a penitência, em tais termos poéticos, não constituirá mais um pecado de orgulho? Por outras palavras: agarrar na culpa e rimá-Ia em poemas tão depurados como os deste livro será depor a vida nas mãos de Deus, ou ainda rebelião contra Deus? Terrível dilema, para o qual a resposta sensata seria o tal silêncio... que nos privaria, obviamente, dos poemas de Vitorino Nemésio. 

“A renúncia, a culpa, a relação com Deus” in Ser em Português 12, coord. A. Veríssimo, Porto, Areal Editores, 1999

 

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Em fim de vida, ou de viagem, este alto astronauta da fantasia continuava a deslumbrar-se, mais do que nunca, pelo lado icárico do destino humano. Nada de prometeísmo na sua inspiração que não foi nunca de revolta ou de combate de armas de luz com o anjo bíblico, território cedo ocupado por José Régio e Torga. O seu signo é o de Ariel, a sua vocação ascensional para compensar a plúmbea força de uma culpabilidade à Caliban, com que a vida, ou apenas o equívoco prazer dela, lhe encharcou as asas de fogo do seu verbo livre e submisso no círculo de um deus de misericórdia e de perdão. 

"Nemésio, «clown» de Deus : glosa lírica a «Limite de Idade»" / Eduardo Lourenço. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 48, Março de 1979, pp. 16-22.

 

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Ora toda a melhor poesia religiosa se mostra ciente de ciladas e equívocos a que nunca se exime. Na tradição literária portuguesa, é Régio o antecessor temático de Nemésio que mais importa considerar, a fim de descortinarmos alguma medida de autenticidade relativa. Podia, é certo, recuar-se a Junqueiro, e perguntar, por exemplo, até que ponto uma palavra tão dilecta e superdeterminada como "pão", consagrado símbolo místico de toda a origem e sustento da vida, da alma, da poesia, não inchará por vezes, como no poema epónimo de O Pão e a Culpa, até ao alegorismo cansativo da Oração ao Pão. Mas Régio está sem dúvida muito mais à vista. Apesar de uma partitura extremamente sóbria, para concerto de câmara sem metais, lá escapam algumas ressonâncias de estridência regia na, ora nas sondagens a o meu poço, ora nas psicomaquias de um meu remorso barato ou de um chorar por medida de versos, ora em conexas exortações à impiedade do Anjo ou ao voltar do látego de o Outro.

Não se trata de meros passes de estilo, pois é precisamente ao nível microscópico da expressão que Nemésio aqui melhor se define. Trata-se de todo um conceito, que se quer vivido e vívido, de religião. A caminho de melhor explicação disto que dizemos, veja-se o seguinte: paradoxalmente, e sobretudo em poeta que veremos tão senhor da sua arte, esta casuística também regiana dos labirintos onde a casuística do misticismo se mete – desemboca várias vezes em apologia do silêncio: Silêncio de Deus. / Levantar a voz começa / A pôr o homem sozinho / Como morto numa essa. É claro que toda a palavra autêntica se gera de uma dialéctica sua com um dado silêncio. Nem mesmo é exclusivo da palavra poética o nascer de um silêncio. Mas a questão que aqui irrompe vai mais fundo, é a questão do poder ser-se, ou não, superiormente humano (e, em espécie, catolicamente autêntico) independentemente de uma comunhão: com os homens num Deus de caridade, e com Deus nos homens tais como são, e mesmo estão. 

Óscar Lopes, História Ilustrada das Grandes Literaturas, pp. 850·851

 


Vitorino Nemésio, em scrimshaw (Museu de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores)

 

 

O mar e o navio 

O mar em Nemésio surge como um princípio criador, uma realidade concreta ‑ a qual transparece nas palavras ou imagens que acompanham a sua descrição: gaivotas, vagas, areais, ilhéus, dunas - e estende-se até nós como um cordão umbilical, entregando-nos a sua força geradora, o seu alimento. 

Fernando Guimarães, «A Expressão Simbólica em Vitorino Nemésio», in Linguagem e Ideologia

 

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O mar é um mundo de coisas vivas, a vaga, as conchas, os peixes, o sal, as sereias, onde tudo é íntimo e prodigioso, é um reino com uma organização onírica, ali flutua, livre, uma eroticidade lírica, vasta, oceânica, ali o poeta é rei.

A vaga é água de múltiplos meandros, resumindo, no fascínio e no repúdio, na transparência e na sufocação, na vida interior e no movimento excêntrico, a existência carregando a infância com ressaibos de reino fabuloso e de reino tirânico.[...]

[O navio não possui, em O Bicho Harmonioso], a carga histórica de mediador de terras e de povos mas a carga erótica de precursor das águas, de mediador da «vaga» e do «capitão». [...] O navio é a figura que faz ocasionalmente coincidir os dois campos opostos, materialidade sólida e liquidez flutuante, formando um conjunto complexo que se associa ao próprio ser. 

Duarte Faria, Outros Sentidos da Literatura

  

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O talento de Nemésio reside em intuir um mar que se desdobra em ilha e de uma ilha que se desdobra na multiplicidade de vivências que lhe ficaram definitivamente agarradas, a começar pela memória do pai, esse duplo da ilha, que Nemésio de lá traz e há de levar às costas pela vida fora, como se fosse um outro Eneias a sair de Troia com Anquises. […]

A identificação com a água “que se some” é, em Nemésio, algo mais profundo do que o pressentimento, cristão ou simplesmente estoico, da inevitabilidade da vita brevis. A água não é aqui um equivalente do que é efémero e, por isso, vão. Pelo contrário, ela representa o elemento primordial, aquele de onde todos os outros hão de brotar, o caos informe que traz no ventre todas as formas possíveis. David Mourão-Ferreira, um dos críticos mais atentos e dos que melhor se apercebeu do papel do mar na poesia nemesiana, cita a este propósito os estudos de Mircea Eliade: “Uma das imagens da criação que melhor se manifesta é a ilha que subitamente se manifesta no meio das vagas. ( ) A imersão na água simboliza a regressão ao pré-formal, a reintegração no modo indiferenciado da preexistência. A emersão repete o gesto cosmogónico da manifestação formal, e a imersão equivale a uma dissolução das formas.

A leitura que David Mourão-Ferreira faz da dialética entre o mar e as ilhas fica-se unicamente por um registo Jungiano da psicanálise, em que a água funciona como figura do inconsciente, ao mesmo tempo que o rochedo firme da ilha representa a “síntese de consciência e vontade”, em que o eu se refugia dos perigos e medos inspirados pelo mar do inconsciente. Semelhante interpretação, que os críticos da Presença não enjeitariam, fica, no entanto, muito aquém de esgotar a função desempenhada por essa dialética na obra de Nemésio. Permite, é certo, apreender um duplo campo de identificação do poeta, ora com o mar ora com a ilha, que vai ao arrepio das leituras que o circunscrevem a esta última, entendida como espaço imaginário cujas fronteiras estariam delimitadas desde a infância e a adolescência. Ignora, contudo, a fecundidade do mar e a sua natureza intrinsecamente proteiforme, a qual faz que a ilha seja não tanto o diferente, o que lhe resiste, mas uma sua manifestação. Precisamente por isso, ilha e mar são ambos fonte inesgotável de formas de o poeta se dizer a si próprio, mediante uma pluralidade de metáforas todas elas com origem no magma oceânico. Na ilha, o eu projeta-se como idêntico a si mesmo, imagem socialmente reconhecida, figura estável e de contornos bem delimitados, a salvo da diluição, que pode ir dar à loucura, ou sabe Deus onde. Porém, o mar permanece, inclusive no interior dessa mesma projeção, como se o poeta fosse apenas um búzio que soa em permanência dentro de si, impedindo-o de assentar arraiais na ilha e condenando-o, qual Sísifo, à infindável procura de uma imagem e de uma palavra que representem a impossível fixidez da identidade em que ele se imagina. Porque o mar de Nemésio não é o mar de Sophia. Nesta, a pureza e a exatidão das palavras remetem para um horizonte geométrico, perfeito mas platónico, um mar suspenso no “arco azul do tempo”, que a vista alcança com a mesma nitidez da luz, enquanto em Nemésio há “um mar de sangue enorme, arroxeado”, um “mestre de angústia” e um “Mestre de limpeza – o sujo de todos os vestígios/Que vai, com o peito exposto e de cristal cortado, /Desafiando os prodígios/E atirando às vezes por desprezo à terra um afogado!”.O mar de Nemésio não é tão-pouco o Mar Português, de Fernando Pessoa, ao qual Deus deu o perigo e o abismo, “mas nele é que espelhou o céu”. Tais abstrações dizem pouco a alguém, como Nemésio, para quem o mar é acima de tudo um símbolo do desejo, encapelado e húmido – “a primeira mulher que amei foi uma cisterna” –, infinito e impossível de moldar em definitivo, que ora é “navio duro” que se vai “à vaga verde” ora se desfaz na boca sonhada, onde “há uma violenta humidade/De que os filhos antigamente não podiam falar a seus pais/Mas que agora vemos ambos corajosamente húmida /E não podendo mais com um beijo que cresce e rebenta/Como esta última lágrima em que te dissolvo sem querer”. Daí, por um lado, a riqueza de imagens em que o poeta se metamorfoseia, sem, contudo, alguma vez se “outrar” realmente; daí também, por outro lado, a remissão para o concreto dessas imagens, a carga sensorial que se pressente nos objetos nomeados e que repercute as Correspondências, de Baudelaire – “numa tenebrosa e profunda unidade/( )/os perfumes, as cores e os sons se correspondem” –, como Nemésio, de resto, assume, no prefácio que redigiu, a pedido do editor, para a antologia publicada em 1961.

Como proceder a esta aproximação do concreto, tão evidente na belíssima “Arte Poética” de O Bicho Harmonioso – “o flanco das coisas só sangrando me comove” – e que Vasco Graça Moura evoca, num poema já antigo e muito comentado, onde fala em “tocar no fundo o coração das coisas/doce e silente coração que as coisas/para o Nemésio tinham e pró Caeiro não”? Na imagética do mar, já o dissemos, o que se encontra é o informe originário, a meio caminho entre a abstração das puras formas e a possibilidade de devir coisa. O desafio que se coloca ao poeta é, por conseguinte, o de encontrar as palavras que evoquem o mar, sem o remeterem à categoria de espelho do céu, despida do lodo e da salsugem que no-lo tornam sensível, nem o reduzirem a um simples objeto, incorporado no linguajar comum, onde já se perderam todos os vestígios da sua simbologia originária. O talento de Nemésio reside em intuir um mar que se desdobra em ilha e de uma ilha que se desdobra na multiplicidade de vivências que lhe ficaram definitivamente agarradas, a começar pela memória do pai, esse duplo da ilha, que Nemésio de lá traz e há de levar às costas pela vida fora, como se fosse um outro Eneias a sair de Troia com Anquises. Escusado será dizer que essa intuição se joga nas palavras e que as palavras estão carregadas de sentidos, que a história e a cultura lá depositaram. Não é possível nomear as coisas que existem, à maneira de Adão no Paraíso. Quanto muito, é possível criar coisas novas, nomeando-as. É esse o trabalho do poeta, de cada vez que evoca a sua própria imagem, ou a do mundo, e através dessa evocação as furta à condição de restos fossilizados do que já havia e já era conhecido, para as levantar em pura novidade e criação: “A voz que se ergue no ermo/Dá uma torre às coisas/Obriga-as devagar ao unido da coroa e do firmal.”

Diogo Pires Aurélio Nemésio: o mar e a ilha”,
Q - Quociente de Inteligência, 22 de março de 2014.

 

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Comparei a minha memória da infância a plâncton: Flutuação, calor de águas de cima, um nada de radioactividade...

Não sei nadar (o que é monstruoso para ilhéu tão firme ao mar!), mas sufoquei-me muitas vezes agradavelmente na enchente, nas poças de lava da Ponta Negra, e sei o que são algas, polvos, medusas, crustáceos. Ainda hoje quando cheiro o mar me comovo. N'Eu Comovido a Oeste está liricamente e como que fenomenologicamente essa minha experiência do mar, a que tudo o que fiz responde. Vejo-o grosso e amargo, ou então muito azul, a perder de vista, barrado de paquetes na horizonte nos verões da guerra de 14, e agora gosto de o reverificar nos vapores caboteiros da Empresa Insulana ‑ Cedros, etc. ‑ passando entre o ilhéu da Graciosa e, perigosamente. a terra, ou levado em lancha baleeira de José Cristiano do cais das Lajes do Pico às Velas de São Jorge, com dois ou três pescadores e uns bigodes de espuma à proa.

O meu mar interior tem pouco peixe antigo... Eu digo: recordações exactas, diacrónicas, este, aquele, aqueloutro... Eu na banheira, menino, é só uma nuvem de vapor de água e pedacinhos de sabão com que brincava: depois a sensação aconchegada do lençol do enxugo... 

Vitorino Nemésio, 1971

 

 

 

 

Temas da poesia culta e da poesia de cunho popular 

[Nemésio cultivou], a par duma poesia mais «culta» (digamos assim), uma poesia de cunho popular. Essa poesia "culta" verdadeiramente iniciada sob a influência da Europa, e muito especialmente da língua francesa ‑ iria assumir traços filosofantes, reflexões sobre o «ser» e a «enunciação», inquietações acerca do sentido, avaliações do mundo e da memória, interrogações acerca da vida e da morte, do devir e da permanência. Mas, a par de tais inquietações, Vitorino Nemésio cultivou uma poesia radicalmente vinculada à tradição popular, uma poesia que pede às cantigas ao desafio o seu essencial substrato, à redondilha maior as regras da versificação, à quadra popular o seu estendal de rimas. […]

[Trata-se, por exemplo, da poesia inserta em Festa Redonda, 1950.] Festa Redonda é um conjunto de "cantigas" que, como o título indica, comungam numa certa concepção de "festa”: Aí se enquadram reminiscências da infância e da juventude, folguedos, cantares e danças. Tudo retransmitido por uma voz pessoal: a singular voz de Vitorino Nemésio […]

Vitorino Nemésio fez-se assim mais um entre os cantores: 

Samacaio deu à costa
Sem ser navio nem peixe:
Eu arribei a uma vida...
Queira Deus que não me deixe!

Samacaio foi à América,
Veio de lá calafona:
Trouxe uma suera de lã
Pró peito da minha dona.

Nunca ninguém cantou tais versos do Samacaio. São o improviso de Nemésio como se, no terreiro, botasse a sua cantiga... sobre o mesmo tema, mas com pessoal originalidade, que isto de repetir ipsis verbis fica muito mal a cantador. Criteriosamente, o léxico evoca a aventura açoriana no Novo Mundo:"calafona" (o que foi à Califórnia),"suera" (sweter) são, na derradeira quadra transcrita, as marcas mais sintomáticas da interpenetração linguística. Mas cheia de naturalidade! Lá, nos Açores, diz-se assim. 

José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978

 

 

 

A conceção de poesia e de poeta. 

A busca do sentido da existência remete-nos para uma concepção de poesia com função de interrogar o real; poesia como processo de conhecimento e de decifração da vida humana. Esse sentido é procurado na representação do passado e da infância, no microcosmos da Ilha, com o intuito de conhecer o mundo e a si próprio. Em suma, a função da poesia é questionar a realidade e o sujeito. Vitorino Nemésio, na Última Lição diz: "Da minha própria poesia, eu que sei? Aprendo com ela a aprender-me".

De facto, n' O Bicho Harmonioso evidencia-se a reflexão sobre o fazer poético. O próprio acto de enunciação da poesia vai reflectindo o seu fazer-se (metapoesia). Nesta obra, o sujeito poético manifesta uma profunda consciência das suas limitações e fraquezas, revelando-se numa constante auto-avaliação. Assim, a preocupação com o discurso poético desde logo se revela no primeiro poema d' O Bicho Harmonioso: "Eu gostaria de ter um alto destino de poeta". 

Ser em Português 12, coord. A. Veríssimo, Porto, Areal Editores, 1999

 

 

 

ARTE POÉTICA 

A poesia do abstracto...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada;
É melhor...
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.

O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

 

Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso (1938)

  

No poema «Arte Poética», a contestação da poesia do abstracto é contraposta ao calor, à exaltação de cada momento, ao corpo, bafejado pela lufada de vento, ao fogo que «alteou / A primeira fogueira». A relativização do valor da ideia como promessa, que acende a esperança na transformação qualitativa da vida é expressa pela metáfora do arquear da grande flecha. A valorização da situação dramática da condição humana («O flanco das coisas só sangrando me comove, / E uma pergunta é dolorida / Quando abre a brecha») é reforçada pela desmistificação do abstracto como «redução, / Secura», perda, em face da imagem do mar verde «que se levanta», «molha e amplia». É o apelo à Vida, à apreciação da beleza do universo, da juventude. Quem ousa permanecer indiferente a tal apelo? 

António Moniz, “A harmonia da Palavra” in Para uma leitura de sete poetas contemporâneos, Lisboa, Editorial Presença, 1997, pp. 70-71.

 

 

 


Vitorino Nemésio | ligações externas

 

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                                                                        LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO      JOSÉ CARREIRO, 2012.08.22 - 2014.02.27